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sábado, setembro 18, 2010

Carta para o Chico Buarque

por José Danon

Chico, você foi, é e será sempre meu herói. Pelo que você foi, pelo que você é e pelo que creio que continuará sendo. Por isso mesmo, ao ver você declarar que vai votar na Dilma “por falta de opção”, tomei a liberdade de lhe apresentar o que, na opinião do seu mais devoto e incondicional admirador, pode ser uma opção.

Eu também votei no Lula contra o Collor. Tanto pelo que representava o Lula como pelo que representava o Collor. Eu também acreditava no Lula. E até aprendi várias coisas com ele, como citar ditos da mãe. Minha mãe costumava lembrar a piada do bêbado que contava como se tinha machucado tanto. Cambaleante, ele explicava: “Eu vi dois touros e duas árvores, os que eram e os que não eram. Corri e subi na árvore que não era, aí veio o touro que era e me pegou.” Acho que nós votamos no Lula que não era, aí veio o Lula que era e nos pegou.

Chico, meu mestre, acho que nós, na nossa idade, fizemos a nossa parte. Se a fizemos bem feita ou mal feita, já é uma outra história. Quando a fizemos, acreditávamos que era a correta. Mas desconfio que nossa geração não foi tão bem-sucedida, afinal. Menos em função dos valores que temos defendido e mais em razão dos resultados que temos obtido. Creio que hoje nossa principal função será a de disseminar a mensagem adequada aos jovens que vão gerenciar o mundo a partir de agora. Eles que façam mais e melhor do que fizemos, principalmente porque o que deixamos para eles não foi grande coisa. Deixamos um governo que tem o cinismo de olimpicamente perdoar os “
companheiros que erraram” quando a corrupção é descoberta.

Desculpe, senhor, acho que não entendi. Como é, mesmo? Erraram? Ora, Chico. O erro é uma falha acidental, involuntária, uma tentativa frustrada ou malsucedida de acertar. Podemos dizer que errou o Parreira na estratégia de jogo, que erramos nós ao votarmos no Lula, 
mas não que tenham errado os zésdirceus, os marcosvalérios, os genoinos, dudas, gushikens, waldomiros, delúbios, paloccis, okamottos, adalbertos das cuecas, lulinhas, beneditasdasilva, burattis, professoresluizinhos, silvinhos, joãopaulocunhas, berzoinis, hamiltonlacerdas, lorenzettis, bargas, expeditovelosos, vedoins, freuds e mais uma centena de exemplares dessa espécie tão abundante,desafortunadamente tão preservada do risco de extinção por seu tratador. Esses não erraram. Cometeram crimes. Não são desatentos ou equivocados. São criminosos. Não merecem carinho e consolo, merecem cadeia.

Obviamente, não perguntarei se você se lembra da ditadura militar. Mas perguntarei se você não tem uma sensação de déjà vu nos rompantes de nosso presidente, na prepotência dos companheiros, na irritação com a imprensa quando a notícia não é a favor. Não é exagero, pergunte ao Larry Rother do New York Times, que, a propósito, não havia publicado nenhuma mentira. Nem mesmo o Bush, com sua peculiar e texana soberba, tem ousado ameaçar jornalistas por publicarem o que quer que seja. Pergunte ao Michael Moore. E olhe que, no caso do Bush, fazem mais que simples e despretensiosas alusões aos seus hábitos ou preferências alcoólicas no happy hour do expediente.

Mas devo concordar plenamente com o Lula ao menos numa questão em especial: quando acusa a elite de ameaçá-lo, ele tem razão. Explica o Aurélio Buarque de Hollanda que elite, do francês 
élite, significa “o que há de melhor em uma sociedade, minoria prestigiada, constituída pelos indivíduos mais aptos”. Poxa! Na mosca. Ele sabe que seus inimigos são as pessoas do povo mais informadas, com capacidade de análise, com condições de avaliar a eficiência e honestidade de suas ações. E não seria a primeira vez que essa mesma elite faz esse serviço. Essa elite lutou pela independência do Brasil, pela República, pelo fim da ditadura, pelas diretas-já, pela defenestração do Collor e até mesmo para tirar o Lula das grades da ditadura em 1980, onde passou 31 dias. Mas ela é a inimiga de hoje. E eu acho que é justamente aí que nós entramos.

Nós, que neste país tivemos o privilégio de aprender a ler, de comer diariamente, de ter pais dispostos a se sacrificar para que pudéssemos ser capazes de pensar com independência, como é próprio das elites - o que, a propósito, não considero uma ofensa -, não deveríamos deixar como herança para os mais jovens presentes de grego como Lula, Chávez, Evo Morales, Fidel - herói do Lula, que fuzila os insatisfeitos que tentam desesperadamente escapar de sua “democracia”. Nossa herança deveria ser a experiência que acumulamos como justo castigo por admitirmos passivamente ser
governados pelo Lula, pelo Chávez, pelo Evo e pelo Fidel, juntamente com a sabedoria de poder fazer dessa experiência um antídoto para esse globalizado veneno.Nossa melhor herança será o sinal que deixaremos para quem vem depois, um claro sinal de que permanentemente apoiaremos a ética e a honestidade e repudiaremos o contrário disto. Da mesma forma que elegemos o bom, destronamos o ruim, mesmo que o bom e o ruim sejam representados pela mesma pessoa em tempos distintos.

Assim como o maior mal que a inflação causa é o da supressão da referência dos parâmetros do valor material das coisas, o maior mal que a impunidade causa é o da perda de referência dos parâmetros de justiça social. 
Aceitar passivamente a livre ação do desonesto é ser cúmplice do bandido, condenando a vítima a pagar pelo malfeito.Temos opção. A opção é destronar o ruim. Se o oposto será bom, veremos depois. Se o oposto tampouco servir, também o destronaremos. A nossa tolerância zero contra a sacanagem evitará que as passagens importantes de nossa História, nesse sanatório geral, terminem por desbotar-se na memória de nossas novas gerações.

Aí, sim, Chico, acho que cada paralelepípedo da velha cidade, no dia 1º de outubro, vai se arrepiar.

Seu admirador número 1,
Zé Danon
José Danon é economista e
consultor de empresas



domingo, setembro 12, 2010

Depoimento da Vereadora Soninha Francine sobre Serra


Leando Dalle questionou a Soninha Francine sobre seu apoio ao Serra. Eis a
sua resposta:


"Leandro, posso explicar, sim. Talvez não em poucas palavras, mas em muitas
informações sobre o que vi, vivi e aprendi nos últimos anos. Pra não deixar
sem nenhuma resposta agora, posso resumir assim:
- Descobri que o meio em que eu vivia - de petistas - inventava muitas
barbaridades sobre o Serra. Por que o Serra? Não sei, talvez porque ele
tenha sido o candidato do governo à sucessão do Fernando Henrique, portanto
rival direto do Lula na disputa presidencial... Porque os petistas já
pintavam os tucanos como o fel da terra (e eu, mesmo quando era do PT,
achava isso um pouco absurdo), e o Serra como o próprio Satanás. Só que os
fatos, mesmo vistos de longe, já desmentiam algumas coisas que diziam sobre
ele: como ele podia ser "queridinho" da grande mídia quando comprava briga
contra a publicidade de cigarro, por exemplo - que era uma baita fonte de
receita para os meios de comunicação?
E como ele era parte da elite imperialista internacional, quando foi à OMC e
lutou contra os lobbys e cartéis da indústria farmacêutica, conseguindo as
quebras de patente em nome da saúde pública dos países mais pobres?
Mesmo com esses fatos, eu acreditava nas versões do PT... Afinal, o PT era o
meu partido, eu tendia a concordar com tudo... Pensava: "Ok, ele fez uma ou
duas coisas importantes, corajosas, mas nem por isso é uma pessoa decente".
O PT dizia que ele era covarde, porque tinha "fugido" da ditadura... Que era
um manipulador ardiloso, porque "armou" um flagrante para Roseana Sarney (se
bem que eu já pensava naquela época: o marido da Roseana Sarney tem um
milhão e meio de reais de origem desconhecida e a culpa é do Serra?).
Enfim, eu o detestava. Até ser vereadora e, ele, prefeito. E descobrir que o
demônio que pintavam não era nada daquilo. Mal humorado, impaciente,
carrancudo, ríspido demais às vezes? Sim. Mau caráter? NÃO.
Em 2005, começo do meu mandato, o Serra me recebeu (a meu pedido), ouviu
atentamente tudo o que eu disse e reconheceu que estava equivocado em
algumas medidas que havia tomado como prefeito. Na manhã seguinte, desfez o
que tinha feito.
Depois, me procurou inúmeras vezes para perguntar de assuntos que acreditava
que eu conhecesse melhor do que ele - políticas de juventude, meio ambiente,
cultura. Cansei de vê-lo pedindo idéias, sugestões, opiniões. O contrário do
que diziam dele...
Enquanto isso, o PT - que era o meu partido - continuava inventando,
mentindo. Uma barbaridade. Analisava um projeto de lei enviado á Câmara pelo
prefeito, concluía que o projeto era muito bom e... No plenário da Câmara,
fazia DE TUDO para barrar o projeto. Saía do plenário para não dar quórum,
subia na tribuna e passava meia hora falando horrores de um projeto que
TINHA CONSIDERADO BOM - apenas para prejudicar "os tucanos" na eleição
seguinte. Mesmo assim, mesmo no meio da guerra mais suja - petistas
espalhavam mentiras para assustar a população, uma coisa realmente horrorosa
- se chegasse um Projeto de Lei de um vereador do PT e ele considerasse o
projeto bom para a cidade, ele sancionava (isto é, aprovava). E se chegasse
um Projeto de Lei de um vereador do PSDB e ele considerasse o projeto ruim
para a cidade, ele vetava. Aliás, nós ficamos amigos, e ele... vetou vários
projetos meus. Ou seja, um comportamento REPUBLICANO, de respeito à Casa
Legislativa e ao interesse coletivo. Mas o PT continuava espalhando que ele
era autoritário, mentiroso, privatista, neoliberal... E que era repressor,
"inimigo dos pobres", "amigo das elites", tudo de pior no mundo.
Mas o Serra ia fazendo coisas muito legais na cidade - criou a Coordenadoria
da Diversidade Sexual, a Secretaria da Pessoa com Deficiência... O Centro de
Juventude da Cachoeirinha, que é do cacete... Pegou um esqueleto que estava
lá abandonado desde o Janio Quadros e fez um troço muito legal. Terminou o
primeiro trecho do maldito Fura-Fila do Pitta, que também estava abandonado.
Voltou atrás na história dos CEUS - porque essa foi uma das coisas que eu
consegui convencê-lo de que ele estava errado - e mandou fazer vários
outros, mantendo o nome "CEU" (bandeira da Marta...). Idem com os
Telecentros - que os petistas diziam que ele "destruir", transformar em
Acessa São Paulo, que era bem diferente... Criou a Virada Cultural. Fez os
benditos hospitais de Cidade Tiradentes e do M'Boi Mirim - que o PT
anunciava que a Marta tinha feito, quando na verdade ela não tinha começado
nem a cavar o alicerce... Sem falar que a Marta, que passou os 2 primeiros
anos de seu governo sanando as contas da prefeitura detonadas pelo Pitta,
passou os dois últimos anos destroçando as contas da prefeitura - e deixou
dívidas absurdas, contratos temerários de 20 anos assinados "no apagar das
luzes"... O Serra deu muita força para a Secretaria do Meio Ambiente, que
sempre era das mais pobrezinhas. E chamou para trabalhar com ele pessoas que
tinham trabalhado com a Marta, sem a menor hesitação, sem rancor e
ressentimento, porque considerava que elas eram competentes.
Enfim, eu VI, eu testemunhei, condutas absurdas do meu partido - e condutas
admiráveis do Serra, que o meu partido pintava como o enviado do capeta.
Resultado: (lembre-se, este é um resumo, a história completa é uma
enciclopédia) saí do PT, que foi se distanciando barbaramente dos ideais que
pregava, adotando o "vale tudo" (pra governar, pra ser oposição), e fui para
um partido de oposição. Que hoje apóia o Serra para presidente, assim como
eu.
E eu nem falei do governo do estado... De mais uma seqüência enorme de
mentiras e terrorismos, como de costume ("ele vai privatizar o metrô!"; "ele
publicou decretos para acabar com a autonomia universitária!"), e, da parte
dele, realizações admiráveis, mais ainda para quem ficou 3 anos e pouco no
governo (e 1 ano e meio na prefeitura). Uma lista de pontos em que a atuação
dele me agrada muito: trens metropolitanos, metrô, meio ambiente, cultura,
pessoa com deficiência... E outros mais.
Se você odeia o Serra como eu odiava, eu sei que não vai mudar de idéia
assim tão fácil. Não tenho essa pretensão. Mas gostaria que você acreditasse
em mim: é com muita convicção que eu voto nele, baseada nos meus 6 anos de
vida mergulhada integralmente na política.
Abração
Soninha"


SONINHAF.jpg

quarta-feira, setembro 26, 2007

OVOS FRITOS EM 2100

O aquecimento global está aí batendo à nossa porta. Parece que veio para ficar. E o que mais me assusta nessa história toda são as atitudes dos cientistas que já não falam em evitá-lo ou fazê-lo retroceder, mas em adaptar a nossa vida ao que entendem inevitável. Há nessas ações, a meu ver, a lógica capitulacionista da irreversibilidade. Eu explico melhor a partir de uma notícia que li na internet e que transcrevo parte dela: “O Ministério da Agricultura do Japão anunciou que desenvolverá um novo tipo de arroz resistente ao calor e à falta de água, em antecipação a períodos de escassez ocasionados pelo aquecimento global. A medida faz parte de um estudo que prevê quedas na produção de arroz e perdas de florestas se os níveis de dióxido de carbono na atmosfera duplicarem e o aumento do nível de mercúrio, segundo a agência Kyodo”.A notícia tratava ainda de percentagens sobre o aumento do nível de dióxido de carbono na atmosfera até o final do século, mas a mim, leigo como a maioria dos que a leram, causou um profundo mal-estar. Não consegui aplaudir os esforços dos cientistas em tentar tirar coelhos da cartola para que a espécie humana continue sobrevivendo malgrado os estragos que causa ao planeta. Estamos mesmo com os dias contados ou vamos nos adaptar e sobreviver? Apesar de toda a inteligência, vamos perecer como os dinossauros?
São questões que alarmam a todos nós hoje, ainda é cedo para ter respostas, e alarmarão ainda muito mais nossos netos daqui a 30 ou 40 anos se em vez de providências para frear essa insanidade que é a poluição e a devastação de nosso planeta, preferirem paliativos para conviver com ela.

São questões que alarmam a todos nós hoje, ainda é cedo para ter respostas, e alarmarão ainda muito mais nossos netos daqui a 30 ou 40 anos se em vez de providências para frear essa insanidade que é a poluição e a devastação de nosso planeta, preferirem paliativos para conviver com ela.

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jjLeandro


O HOMEM INVISÍVEL

Não, não é ficção científica. Essas coisas ainda não acontecem por aqui. Mas o Deodato realmente tornou-se invisível. Todo mundo olhava para ele, mas era como se não existisse. Nada espetacular e glamourizado como o Homem Invisível daquele seriado americano da década de 1970, assim tornado pelos efeitos de um acidente radioativo. Deodato não era um cientista, mas um homem comum. Só vim saber o seu nome, e também um pouco de sua história, bem mais tarde pelos jornais, que contaram na crônica policial – com um pouco de surpresa e culpa – o seu silencioso infortúnio. Acharam em seu bolso de mendigo um bloquinho de papel, a única coisa que guardava com capricho, como se fosse um testamento – não desses para deixar pecúnia. Mas um muito mais valioso: verdadeiro patrimônio humano. Para sobreviver às intempéries, guardava-o enrolado no plástico de um saco de açúcar Cristal. Era um alerta sobre a sua história, para todos nós, onde num trecho relatava, sem egoísmos: “sei que o que estou passando outros milhões também passam em silêncio”. Ele tinha consciência de sua solidão e de sua invisibilidade: “outro dia no sinal estendi a mão em busca de um trocado e o sujeito dentro do carro, vidro fechado, evitando o fogo da tarde, fez de conta que eu não existia. Nem me olhou para dizer um não. Isso sempre é melhor do que o desconhecimento”.
É ele quem vai falar o tempo todo. Serei apenas o veículo dessa comunicação. Como foi parar nas ruas? Era uma história longa, que preenchia várias folhas com uma letra minúscula, cheia de reparos – como a querer consertar a vida disse o jornalista. Mas a mim pareceu ser vergonha de se expor irremediavelmente ao mundo todo – tinha certeza de que iriam lê-lo um dia. “Eu sou um homem do Nordeste. São Paulo foi um sonho que vi virar pesadelo. Em primeiro lugar porque nunca consegui trabalho – vivia de biscate e, muito depois, de esmolas. E depois porque, desde que casei, a mulher se deu melhor com o vizinho do que comigo. Me meteu os pés na bunda e fui parar na rua, me enchendo de pinga para esquecer tudo”.
Mesmo toda a vida sendo um homem simples e sem posses, Deodato sentiu e descreveu a chegada ao fundo do poço: “quando eu vivia de biscate e morava na favela, ainda existia para muita gente. Muitos deles me davam bom dia, conseguia um crédito na padaria da esquina. Alguns companheiros de tragos no bar me chamavam de Déo”. Na rua conheceu o verdadeiro opróbrio: “na rua as pessoas ou te olham com a cara ruim, ou te ignoram. Quase toda vez que me aproximava de uma com a mão estendida, ela virava o rosto de banda, olhando para o outro lado como se procurasse alguém; mesmo se do outro lado corressem um longo muro sujo e a calçada deserta”.
Quando chegou ao irrefutável conhecimento de quem era, mesmo no estado degradante em que se encontrava, ainda sofreu. E isso eu vi claro nas letras trêmulas com as quais escreveu a breve sentença – eu estive com o jornalista que redigiu a notícia e ele me mostrou o bloquinho: “eu não sou ninguém. Eu não existo!”. Em certo trecho do seu testamento quase fui às lágrimas. Ele escreveu, por certo, ao abrigo de alguma marquise de prédio no centro velho de São Paulo, ou ao léu em alguma praça enquanto queimava jornais e papelões para espantar o frio da noite: “para mim todo dia chove. O mundo é um borrão que vejo por trás de uma cortina de água”. Eram as lágrimas dos momentos de dor aguda. Descobri com Deodato que o homem perde tudo: bens, família, dignidade, mas nunca a capacidade de emocionar-se.
“E como souberam de sua história?” perguntei ao jornalista ainda na redação. Ele coçou o queixo, abriu a gaveta da escrivaninha do computador, depositou o bloquinho entre outros papéis – ainda envolto no saco de açúcar – e apagou o cigarro no cinzeiro antes de falar. “Foi simples. Deodato um dia deixou de ser invisível”. “Quando?”, perguntei intrigado. “Quando morreu, homem! Os cachorros foram os primeiros a descobri-lo. Depois veio a inhaca do cadáver...a vizinhança incomodada...e você sabe como são essas coisas”.
Acredito que Deodato augurou esse momento: “Um dia ainda vão me ver”. Mas o jornalista discordou de mim. Na sua versão romantizada, Deodato quis acrescentar à capacidade de se emocionar que o ser humano nunca perde, a despeito de como leva a vida, a condição de jamais abdicar de sonhar.

jjLeandroi