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quarta-feira, junho 09, 2010

Final de Lost: ep. 6x17/18 ‘The End’ – Easter eggs, curiosidades e repercussão


por Davi Garcia no dudewearelost

O que Lost representou para você? Pergunte isso para 10 pessoas e você provavelmente terá 10 respostas diferentes. Não é realmente fácil definir a série numa só leitura e isso diz muito sobre sua complexidade e o nível de envolvimento que cada um de nós desenvolveu com ela. Se para uns foram sempre as pessoas o elemento mais importante de Lost, para outras eram apenas os mistérios que interessavam. A discussão é infindável e bem vinda como sempre, claro. Contudo, para não me alongar demais, destaco uma frase do James Poniewozik da revista Time, que fez uma leitura bem interessante do que Lost significou de uma forma geral e abrangente: a iniciativa de entretenimento mais filosófica que a tv já viu. Gostando ou não de desfecho da série, dá para discordar?

Ao optar por deixar de lado os mistérios que mais atormentavam a turma docheck list concentrando-se na conclusão da jornada vivenciada em conjunto pelos personagens que conhecemos há seis anos, ‘The End’ derrubou todas as teorias mais prementes ao mesmo tempo em que subverteu uma das mais antigas, aquela ligada à ideia do que representa o que muitos chamam de purgatório, limbo ou qualquer outra coisa parecida. Ao construirem a revelação do que era a realidade paralela em cima desse conceito (um lugar para deixar o fardo para trás, recordar o que aprendeu e evoluir), os produtores - no melhor estilo Sawyer - aplicaram um belo golpe para dar desfecho à história dos personagens de forma bastante emocional e, no caso de Jack especificamente, cíclica.

Se Lost foi uma série sobre sobreviventes de um acidente aéreo que encontram numa ilha a chance de um recomeço, o nada previsível ‘The End’ foi o desfecho da história de um grupo que se encontrou na comunhão dos laços afetivos que criaram para poder dar o próximo passo e seguir em frente como disse Christian Shephard. Ao ousar apontar uma resposta para um dos maiores mistérios da humanidade (o que acontece quando a vida aqui acaba?), o teor da última e impactante mensagem que Lost deixa para nós é inquestionavelmente espiritual. Dito isso, você não precisa acreditar em nada daquilo para entender a mensagem. Basta pelo menos se permitir sentir o que foi mostrado nessa que foi a mais tocante celebração da natureza humana que a tv já produziu.

Como fã já saudoso da série, esse post foi especialmente difícil de ser feito. Não pela escassez de tempo ou por conta do tamanho do episódio, mas sim pela certeza de que cada nova imagem que eu capturava do vídeo e cada novo pequeno comentário que escrevia era a representação de mais uma despedida daquela história e daqueles já saudosos personagens.

Divirtam-se!


Na breve, porém não menos bela sequência que abriu o episódio mostrando a chegada do caixão de Christian Shephard ao aeroporto de Los Angeles e o ping-pong mostrando alguns dos personagens na realidade da ilha e naquela que mais tarde descobriríamos ser paralela só no nome, a trilha de Giacchino fez a mágica dando um tom melancólico e emocional da despedida que o episódio marcou.

O despertar dos personagens

De uma maneira geral, todos as sequências que mostraram o despertar dos personagens foram impactantes. Inevitavelmente, cada um tem sua preferida (ou preferidas), mas se há uma certeza sobre todas elas é que foram emocionantes, ainda que em graus diferentes.





    Marcado pela reaparição de Juliet, o despertar de Sun e Jin teve como gatilho as coisas mais importantes que a ilha lhes deu: a reconstrução de seu casamento (motivado pela redescoberta de seu amor) e sobretudo o fruto daquela relação: Ji Yeon. Curioso também notar que naquele plano, foi justamente Sawyer que apareceu para ‘protegê-los’. Logo ele, que na realidade da ilha chegou a se sentir culpado por suas mortes.
    Sim, sim, o despertar do iraquiano teve lá sua dose de emoção também, mas vamos combinar que ainda que seja compreensível que ele tenha ocorrido com Shannon (afinal, essa parecia ser a única forma mais orgânica de reintroduzí-la no desfecho da série), ficou um tanto quanto incoerente que o grande laço afetivo que Sayid tenha tido em vida fosse com a loirinha mimada em vez de Nadia (que Sayid havia prometido encontrar numa outra vida inclusive, lembram?). E ok, que a ‘lógica’construída tenha sido a da ligação nascida na ilha onde Nadia nunca esteve, mas mesmo assim, sei lá, ficou estranho. Ou não?
    Locke sempre fez parte do grupo e sempre se importou com eles, ainda que bem menos do que Jack, por exemplo. Analisando sob esse prisma, a verdadeira conexão de Locke nunca foi especificamente com alguém, mas sim com a própria ilha. Foi ela que promoveu o milagre de fazê-lo voltar a andar e transformou o antes fracassado John, num homem crente, confiante e fiel à natureza inexplicável, porém absolutamente marcante do lugar que lhe deu o que mais procurava em vida: respeito.

    Fora isso, vale destacar também a frase dita por Locke a Jack naquela ocasião: “espero que alguém faça por você, o mesmo que você fez por mim”. A frase ganha ainda mais impacto quando pensamos que no final de sua jornada na ilha, Jack poderia dizer esta mesma frase a Locke se ele estivesse vivo por lá.
    De todos os personagens, um dos mais perdidos em vida ao chegar à ilha era Charlie Pace. Mergulhado num vício, o astro de um sucesso só encontrou no amor que nutriu por Claire a conexão que já havia perdido com trabalho, amigos e família. Tê-la, foi a oportunidade de aprender a valorizar o gosto pelas coisas mais simples (quem não lembra do simbolismo daquela cena do pote de pasta de amendoim vazio?) e desenvolver um forte sentimento de proteção por ela e pelo então bebê Aaron. Um sentimento aliás, que culminaria num ato de desprendimento máximo traduzido pelo sacríficio que marcaria sua morte no final da 3ª temporada.

    Com relação a Claire e Kate especificamente, o simples ato de ‘reviverem’ a situação do parto de Aaron foi suficientemente forte o bastate para trazer a plena compreensão do que seu encontro representava naquele plano. A construção da cena foi praticamente idêntica àquela que culminaria no nascimento de Aaron na ilha e não menos emocionante, graças sobretudo ao belo trabalho de Evangeline Lilly, que conferiu muita autenticidade à emoção que o momento exigiu de sua personagem.

    Nota: Sinceramente não entendo a polêmica em cima de termos visto o ‘nascimento’ de Aaron ali. O fato é que Aaron não existiu naquele plano. Toda a recriação daquele mundo, levou em consideração a construção das mesmas situações que os fizeram se ligar. Assim, era natural que um evento daquela importância para aqueles três personagens fosse revisitado. Era o gatilho que precisavam para se recordar.
    Com a cena que começou com piadinha de Juliet com 
    Sawyer
     James (‘talvez você devesse ler os direitos da máquina’), vimos algo que culminaria num dos momentos mais marcantes e emocionantes desse final da série. A sequência que promoveu o reencontro dos dois, trouxe ainda a explicação inequívoca de que as últimas palavras de Juliet em vida (‘Deveríamos tomar um café’) eram mesmo reflexo da outra realidade. Já o ‘funcionou’ ouvido por Miles, muito mais do que a certeza de que outro plano existia (ainda que não provocado pela detonação da bomba), tinha a ver também com o fato de que uma reles máquina de guloseimas havia liberado uma barrinha de chocolate Apollo, que como você deve ter notado, ficara presa na posição 23.
    Relutante, Jack acabou sendo o último a despertar para o significado de todos aqueles encontros recheados de coincidências. Ver sua jornada naquele plano, foi quase um espelho de sua trajetória em vida na ilha, lugar em que um líder nato viu sua razão fria ser sugada pela falta de respostas lógicas e onde ele só encontrou a paz plena ao abraçar na fé e no desprendimento, a chance efetiva de consertar e se conectar de forma efetiva e principalmente afetiva com todas aquelas pessoas. Desta sequência, também não dá para deixar de falar da emoção do personagem ao finalmente poder se reencontrar de forma serena com o pai, Christian, justamente o responsável por dar o empurrão final para o choque de consciência no filho.

    Outros momentos marcantes
    “Ei doc, que tal descer da montanha e contar o que o arbusto ardente tinha a dizer?” Na cena que abriu definitivamente o episódio, Sawyer fez graça ao perguntar a Jack o que eles deveriam fazer dali para frente. Sua menção ao tal arbusto (Jacob)? Uma referência ao livro do Êxodo da bíblia, que em passagem do capítulo 3, destaca a representação de Deus como sendo uma sarça (espécie de arbusto) ardente conversando com Moisés.

    Dentre as várias referências que a série fez a Star Wars, as duas ditas por Hurley foram especialmente significativas. A primeira, “(Jacob) é pior que o Yoda”, representou de forma perfeita tudo o que o ex-protetor da ilha era: um ser de grande sabedoria adquirida pelos longos anos na ilha, mas que preferia complicar as coisas quando poderia simplificá-las. Já a segunda menção, “Tenho um mau pressentimento sobre isso”, foi uma alusão direta à mesma frase dita pelo menos uma vez em todos os filmes da saga galática criada por George Lucas.
    E o hotel que Hurley chegou em sua hummer com Sayid onde foi ‘convencer’ Charlie (usando dardo tranquilizante) a ir para o concerto, hein? É exatamente o mesmo que Sayid usava como esconderijo e onde acabou sendo atingido por um tranquilizante bem parecido em determinada passagem dos flashforwards. Esse mesmo hotel também já havia aparecido num flashback do Locke quando ele tentou propor casamento a Helen.
    Embora Rose e Bernard nunca tenham sido regulares no elenco de Lost, depois do 2º ano da série, era uma tradição incluí-los nos encerramentos de cada temporada. Assim, se vê-los nesse desfecho não chegou a ser tão surpreendente uma vez que a teoria apontando que eles pudesse ser o casal de esqueletos na caverna já havia caído, pelo menos tivemos a confirmação de que os dois não ficaram ‘presos’ no passado da ilha. Vivendo quase como afamília Robinson (série dos anos 70 sobre uma família de náufragos que passa a viver numa ilha), foi o casal que ajudou Desmond a sair do poço dando-lhe abrigo até o momento que (F)Locke aparece ameaçando matá-los caso Desmond não o acompanhasse. Agora sabendo como a história terminou, como será que os dois viveram no período que Hurley foi o protetor da ilha, hein?
    Além desse belíssimo cenário (que faz parte de um tour organizado por uma empresa de turismo em Oahu), uma das coisas que mais sentirei falta da série são os geralmente fortes diálogos envolvendo Jack e Locke. E nem importa se aquele ali não era o verdadeiro Locke. O nível de tensão entre os dois personagens era o mesmo.

    Ainda dessa sequência, destaque para a frase de (F)Locke a Jack: “você era a escolha mais óbvia”, quase um reflexo do que muitos fãs disseram depois dos acontecimentos do penúltimo episódio.
    Vi alguns questionamentos apontando que era incoerente (F)Locke saber localizar o coração da ilha de uma hora para outra. Para esses pergunto: por que ele não saberia? A questão é que antes ele não tinha nenhum mecanismo tão singular como Desmond em mãos para que enfim pudesse tentar extinguir a luz que mantinha o equilíbrio da ilha (mais sobre isso daqui a pouco). Daquela cena, veio também o que seria uma das últimas dicas sobre a real natureza da outra realidade através das palavras de Desmon, “ há um lugar onde podemos ficar com nossos entes queridos.”
    Outro grande momento desse final da série veio na fala de Jack, que reconhecendo mais uma vez a importância do verdadeiro John Locke em sua jornada até ali, disse o seguinte a (F)Locke: “Você desrespeita a memória do Locke ao usar o rosto dele, mas não é nada parecido com ele. No final, ele estava certo sobre quase tudo. Pena que eu não disse isso enquanto ele estava vivo.” Palavras absolutamente marcantes para um personagem que passou tanto tempo consumido pelo orgulho, não?
    Uma homenagem elegante a um daqueles momentos da história da série que certamente figura na lista de todo fã. Assim foi a construção da cena que mostrava (F)Locke e Jack observando o fundo daquela caverna de luz fazendo espelho daquela que marcou o encerramento da 1ª temporada quando a escotilha foi finalmente aberta. Excelente sacada do roteiro e principalmente do diretor Jack Bender.
    E não é que aquela história de que se não há corpo não há morto fez todo sentido para Lapidus? Pois é, agora cá entre nós: o personagem só existiu durante toda a temporada para que pudesse ser o piloto do avião Ajira que tiraria algumas pessoas com vida da ilha. E da rápida sequência no mar, veio aquela constatação: a temporada e a série acabou e a explicação do quem estava atirando nos losties durante um dos saltos temporais na 5ª temporada não foi dada. Sabe aquela história de que Lost é/foi uma série brilhante, mas ainda assim passível de tropeços? Pois é.

    Em destaque na imagem acima, o momento em que Richard Alpert finalmente percebe com alegria que havia se livrado do que para ele era uma verdadeira maldição: o fato de não poder envelhecer. Com a certeza de que sua vida teria fim um dia, Alpert soube valorizar num simples cabelo branco, o desejo de poder realmente viver.
    Tá certo que perto da revelação final (e sobretudo por conta do que Locke disse* a Jack logo após seu despertar), a descoberta de que Juliet seria a tal ex-mulher de Jack naquele plano e mãe de seu filho, David, até perdeu o brilho. Dito isso, não dá para ignorar o fato de que há uma certa coerência de que Jack pudesse ter algum envolvimento com a loira dado que essa possibilidade foi bem explorada ao longo da 3ª temporada.

    * Sobre o fato de David não existir, segundo Locke, uma boa interpretação pode ser a seguinte: sendo aquila realidade um mundo criado pelos espíritos dos personagens para que eles pudessem se reencontrar, Jack teria um filho para que pudesse através dele resolver seu dad issue colocando-se justamente na posição inversa que experimentou em vida e o traumatizou. Mas e a Juliet, o que tem a ver com isso? Ora, um de seus maiores traumas em vida na trajetória da ilha não era a de ter quase sempre encarado decepções com gestações que nunca se concluiam? Talvez tenha sido essa a saída dela para apaziguar parte desse sofrimento: experimentar ela própria uma gravidez que chegou ao fim.
    Excelente termos visto que o coração da ilha não era só uma ‘fontezinha de luz’ saída de um parque temático qualquer como alguns apontaram depois do ‘Across the Sea’ (que contextualizado com esse final ganha ainda mais importância, mas divago). Indicando de novo que outros povos/civilizações passaram pela ilha muito antes daquela protetora que manipulou dois jovens irmãos, o interior da caverna nos revelou a existência de um mecanismo construído por homens para tentar manter em equilíbrio pleno, as forças que regiam a ilha.

    Daquela sequência, destaque claro, para a decepção de Desmond que até ali achava que o contato com a fonte de eletromagnetismo o faria ‘viajar’ de novo para bem longe dali e para o fato de que extinta a luz (pelo menos momentaneamente), (F)Locke/homem de preto finalmente viu sua humanidade ser reestabelecida ainda que toda maldade fruto da tragédia que se abateu sobre ele permanecesse. E foi com aquele evento que acabamos chegando à...
    ... bem orquestrada sequência (que começou com um plano lembrando o filme ‘300’) de Jack com o homem de preto no penhasco. Daquela selvagem briga que culminaria com Kate atirando e matando o homem de preto, destaques mais que óbvios (de novo) para a boa direção de Bender, que soube mesclar cortes secos com boas panorâmicas, que aliadas à fotografia acinzentada e consequentemente sem vida, remetia exatamente à sensação de que um dos dois personagens encontraria seu fim ali.
    Ainda daquelas cenas, os ferimentos à faca sofridos por Jack remeteram instantaneamente àqueles que tanto intrigaram o personagem em vários momentos dessa última temporada naquela outra realidade. Tendo aparecido ainda no episódio “LA X” (lembra do Jack observando um seu pescoço ainda dentro do avião?), não deixa de ter sido uma pequena dica bem sutil dos roteiristas da série já àquela altura apontando para onde iriam, afinal, foi um daqueles ferimentos, a facada no abdomem, o responsável pela morte de Jack, o que por tabela deu todo sentido àquela história de Jack não se lembrar de onde ela teria surgido.
    É muito justo dizer que os atores do elenco de Lost cresceram com a série e que ficaram maduros profissionalmente entregando (salvo raras exceções) interpretações muito mais marcantes e significativas do que antes. Além de Josh Holloway e da própria Evangeline Lilly, Jorge Garcia foi um dos que mais evolui em seu trabalho ao longo desses seis anos. Assim, se lá no início vê-lo tendo que fazer cenas que exigiam emoção do personagem era certeza de que algo ficaria faltando, ao encerrar seu trabalho na série o ator conseguiu se mostrar muito mais à vontade e competente para transmitir o tom certo que as mais variadas situações exigiam. A cena que marcou a transmissão do cargo de protetor da ilha de Jack para ele foi um desses grandes momentos do ator/personagem na série. Hurley realmente se importava com os outros e nunca aceitou com facilidade a ideia de sacrifícios alheios ainda que feitos em prol de um bem maior poderiam ser a última saída. As lágrimas de Hurley não eram provocadas pelo medo de ter que assumir a responsabilidade de proteger algo que ele ainda sequer compreendia em sua plenitude, mas sim pelo temor de ter que se despedir de um amigo, o que sempre diz muito sobre quem foi aquele carismático dude.
    Uma das certezas que o final de Lost nos trouxe foi que o ‘te vejo em outra vida, irmão’ ganhou seu sentido definitivo principalmente por conta da cena que marcou o salvamento de Desmond por Jack e da despedida entre os dois. Foi também naquela sequência que marcou a restauração do equilíbrio da ilha, que Jack começou a deixar suas dores de lado para vislumbrar a satisfação do dever cumprido.
    A decolagem do Ajira levando Sawyer, Kate, Claire, Miles, Alpert e o próprio Lapidus, claro, foi outro daqueles bons momentos de ‘The End’. A construção da cena que terminaria com o avião alçando voo trouxe pro lado de cá da tela a mesma tensão que os personagens transmitiram ao se mostrarem nervosos e agarrados em suas poltronas. Ou vai dizer que você passou incólume às emoções daquela sequência?
    Não sei você, mas se eu tivesse que fazer um ranking das cenas mais impactantes e emocionantes de ‘The End’, essa entre Locke e Ben na parte externa daquela ‘igreja’ figuraria fácil fácil no meu top 3. E se já é lugar comum dizer que Michael Emerson e Terry O’Quinn são dois grandes atores, chega a dar um certo aperto só de pensar que dificilmente veremos na tv cenas tão fortes, emocionantes e vibrantes como a que marcou o pedido de perdão de Ben a Locke. E se a cena já não era suficientemente perfeita só por aquele momento, ver John se erguendo da cadeira de rodas que tanto o prendeu em vida foi a coroação final de uma dessas cenas inesquecíveis na história da tv.

    “Ainda tenho coisas a resolver.” Foi por isso que Ben não se juntou aos demais naquele lugar. De suas maiores pendências, pedir perdão a Danielle Rousseau e a Alex por tudo que fez a elas certamente era a maior, assim como se reencontrar com o próprio pai, Roger, cuja vida o próprio Ben tirou.

    Nota: Se as cenas entre Locke e Ben agora só existirão nos DVDs da série e nas nossas memórias, voltar a ver O’Quinn e Emerson atuando juntos de novo não é um sonho muito distante. A possibilidade vem circulando já a alguns meses, por isso não custa dar um destaque à nota do Digital Spy (em inglês) que aponta chances reais de que um projeto de série (que não tem nada a ver com Lost, diga-se) pensado por O’Quinn possa ganhar vida num futuro próximo. Vale a torcida desde já, não?
    Desde que apareceu na série, nós nunca conseguimos saber quando Ben estava ou não usando a máscara da mentira e da manipulação. Nesse panorama e dado o desfecho do personagem, seu conselho, “faça o que você sabe fazer de melhor, Hugo. Cuidar das pessoas”, soou absolutamente verdadeiro. E ao compreender que não estava destinado a ser o ‘dono’ da ilha, Ben pôde finalmente se envolver com o lugar de um jeito que nunca havia experimentado antes, o que de certa forma acabou ajudando-o a encontrar parte de sua redenção particular na posição de consiglieri de Hurley, o novo Jacob.

    E com conversa que os dois personagens tiveram do lado de fora daquele lugar (falando de si próprios no passado), veio também o que seria a última dica sobre o real significado daquela realidade. Agora, se você ficou curioso(a) para saber o que pode ter acontecido na ilha durante o ‘reinado’ de Hurley auxiliado por Ben, vale destacar que o DVD/Blu Ray dessa 6ª temporada trará um segmento de aproximadamente 14 minutos que fará um epílogo da trajetória dos dois personagens ali depois que Jack morreu. Assim, com a promessa de que Walt também vai aparecer num dos extras, não acha nada difícil que vejamos a conclusão de sua história ocorrendo na ilha onde chegaria para substituir Hurley. Seria uma boa saída para amarrar as coisas, não?
    Bom, a essa altura você certamente percebeu que aquele local que marcou a reunião definitiva dos personagens não era uma igreja normal, né? A evidência mais forte disso veio com a sala repleta de objetos representativos de crenças e fés absolutamente distintas, mas sobretudo com o vitral decorado com símbolos dessas mesmas crenças.

    1. Islamismo, fé difundida pelo profeta Maomé. 2. Judaísmo, representado pelo selo de criado por Salomão comumente conhecido como estrela de Davi. 3.Hinduísmo, prática nascida na Índia e que prega a experimentação da divindade em tudo o que nos cerca. 4. Cristianismo, a união do pai (Deus), com o filho (Jesus) e o espírito santo. A crença mais difundida no ocidente. 5.Budismo, representado pela roda Dharmica, é a crença que prega o equilíbrio entre compreensão, pensamento, fala, ação, meio de vida, atenção, sabedoria e visão. 6. Taoísmo, representado pelo Yin-Yang prega o equilíbrio entre duas forças diametralmete opostas.
    Sobre o emocionante reencontro final que alguns lamentavelmente preferiram reduzir a questionamentos ligados ao paradeiro de Michael, Walt e Eko, por exemplo, vale dizer que, 1) o Ator que fez o Mr. Eko não aceitou o convite para gravar participação no fim da série (queria ganhar 5 vezes mais do que lhe foi oferecido) e 2) Estando espiritualmente preso na ilha, seria incoerente mostrar Michael aparecendo naquele plano e principalmente naquele momento. E quanto ao Walt, não seria nenhum exagero imaginar que ele não tenha sequer morrido ainda para finalmente dar o próximo passo. E quanto aos demais que apareceram na série ao longo daquela jornada? Ora, já havia ficado bem claro que alguns (como Ana Lucia por exemplo) ainda não estavam prontos para lembrar e poder seguir em frente.
    Dito isso, que os críticos classifiquem e digam o que bem quiserem daquele momento, mas fato é que para mim (e para milhares ao redor do mundo, tenho certeza) aquele reencontro foi uma das experiências mais catárticas que a história da tv já proporcionou.
    Pensei em algumas coisas para descrever o sentimento dessa última cena de Jack, mas lendo um comentário do leitor e professor de direito, André Coelhoem seu blog Filósofo Grego, me deparei com a visão mais representativa daquele momento.

    “A cena final de Lost é trágica ao estilo grego: O heroi, deitado no solo da cena inicial do seriado, prestes a morrer em autosacrifício, sozinho a não ser pela tocante companhia do cachorro Vincent, contempla no avião que passa no céu o cumprimento de seu destino de salvar a ilha para assim salvar as pessoas, sem, no entanto, ser bem sucedido em salvar-se a si mesmo, a não ser no sentido simbólico de uma redenção martírica.”
    E para encerrar (triste dizer isso), destaque para a pequena polêmica provocada por uma decisão da rede ABC de incluir imagens dos destroços do avião durante os créditos de ‘The End’. O que para alguns significou o easter egg definitivo que apontaria que todos estavam mortos desde o acidente, não passou de uma homenagem da emissora ao cenário onde tudo começou: o set da praia com a fuselagem do avião.

    Então, resumindo: tudo o que vimos ao longo desses seis anos na ilha e fora dela nos flashbacks e nos flash forwards aconteceu mesmo. Os personagens estavam vivos durante todo o período que passaram na ilha, que era um lugar de propriedades singulares, mas absolutamente real. Todas as dores, sofrimentos, conquistas e aprendizados que Jack e cia tiveram na convivência que estabeleceram ali, foram fundamentais para que tivessem aquele desfecho. Os mistérios que ficaram para trás? Parte do legado que a série deixa e que a vida tem aos montes para que a discussão nunca termine.

    Obrigado Lost por seis anos inesquecíveis.

    Repercutindo o episódio

    “...Lost se tornou esta série tão memorável em função de seus personagens... E por mais que seja um cético na "vida real", confesso sem embaraço algum que ver todos aqueles indivíduos - não, mais! Aqueles meus amigos - se reencontrando no pós-vida, felizes por voltarem aos braços uns dos outros foi algo que me fez despedir de Lost com lágrimas, mas também com um imenso sorriso de agradecimento. Eu estava feliz por eles, mas também por mim, que tive a honra de conhecê-los e acompanhá-los por seis inesquecíveis e fantásticos anos.

    Pablo Villaça – Cinema em Cena

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    “E no fim não mais importaram os números, as teorias, os mistérios ou mitos. A realidade paralela foi apenas um ponto de encontro daqueles que a todo custo viveram juntos e não queriam morrer sozinhos, a “antessala” do paraíso para os que precisam dar um nome a tudo. Mas o maior feito deste final foi o de criar algo atemporal, completo e ainda assim aberto para (milhões de) interpretações.”

    Bruno Carvalho – Ligado em Série 

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    “No fundo, a gente precisa das pessoas. São elas que dão sentido à tudo. E os melhores momentos da vida são aqueles que a gente passa com quem a gente ama. O resto, é tempo perdido.”

    Rosana Hermann – Querido Leitor 

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    “Não, as grandes perguntas não foram respondidas – o que é, antes de mais nada, um modo muito inteligente e orgânico de manter a mitologia da série viva ab aeternum (para citar outro pedaço da mitologia). Mas A grande pergunta que os show runners Damon Lindelof e Carlton Cuse decidiram abraçar neste fim de série – a própria natureza humana e seu destino – foi completamente respondida, com a eficácia dos bons contadores de história , em volta da fogueira, desde o princípio dos tempos.”

    Ana Maria Bahiana – Hollywoodianas

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    “Um final que vai dividir os fãs. Mas talvez por um tempo, até que o impacto passe e as idéias sejam organizadas. Então, todos nós estaremos novamente juntos. De certa forma, tivemos sim um final aberto e podemos usar nossas crenças, ou não-crenças, para encontrar uma resposta. Mas sempre terá uma nova pergunta...”

    Leco Leite – Teorias Lost

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    “Respostas não recebi, mas tive toda a emoção que eu precisava. Tive duas horas e meia de televisão espetacular que honrou uma das melhores séries da mesma e terminei plenamente satisfeito com as decisões criativas que foram tomadas. Talvez a imagem mental que eu formei desse fim mude daqui a alguns anos, e sinceramente, não interessa. Estou feliz. Feliz por Jack, Locke, Kate, Sawyer, Hurley, todos presentes e não presentes na igreja, pela imagem final remetendo ao começo da série e por Vincent, que colocou a cereja no topo do bolo e quebrou na hora qualquer fã que tenha um coração.”

    Mateus Borges – Série Maníacos

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    “The End foi o melhor final de todos os tempos? Colocando no contexto histórico da tv, eu diria que não. O final de Newhart e talvez o de M*A*S*H e até de O Fugitivo foram mais precisos. Dito isso, o final de Lost foi muito melhor do que o de muitas outras séries contemporâneas tanto de drama quanto de comédia. E como forma de encerrar essa vasta fantasia, Lost trouxe um final que refletiu nossos tempos turbulentos: foi reconfortante e seguro. Teve até um cachorro que me fez, por um instante, derramar uma lágrima.”

    Ken Tucker – Watching Tv 

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    “A última temporada de Lost foi sobre ter o tipo de fé necessária para aceitar que as coisas farão sentido mesmo quando isso não acontece, sobre entender que o mundo às vezes é um lugar trágico onde coisas ruins acontecem e algumas vezes um lugar lindo onde as pessoas podem criar coisas maiores que elas próprias ao simplesmente caminharem juntas e construirem algo. Falei aqui sobre como adoro coisas que remetem ao senso de comunidade, sobre os caminhos que as pessoas podem trilhar juntas em direção a outra coisa. E no fim, Lost era sobre isso também. Só é uma pena que tenha deixado para mostrar isso tão tarde.”

    Todd VanDerWerff – Show Tracker
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    “... não foi à toa que os mistérios e a mitologia ganharam corpo na trama de Lost. Eles são elementos sempre presentes na jornada humana. Mas, assim como na vida, no enredo da série eles nunca foram mais do que acessórios para a história que realmente importa: a da nossa busca por realização. Realização que passa necessariamente por dores, lutas, lágrimas e incompreensão. Mas que, mais cedo ou mais tarde, chega sempre a um fim, no qual poderemos olhar para trás e dizer: "Valeu a pena!", enquanto confraternizamos com as pessoas cujas lutas, derrotas e vitórias se tornaram parte essencial de nossa própria caminhada.”

    Romário Fernandes – Espírito da Arte 

    ***

    “The End foi um épico que me sugou emocionalmente e me fez chorar com quase todos os momentos que marcaram o ‘despertar’ dos personagens. Além disso, foi um um desfecho que me fez refletir sobre o verdadeiro significado da realidade paralela, que foi revelada como sendo uma espécie de purgatório criado pelas próprias almas daqueles que um dia estiveram perdidos. (Purgatório! Que ironia!) Fiquei tão feliz de ver a ilha sendo salva. Fiquei muito tocado pelo heroísmo, pelo sacrifício de Jack e pelo glorioso significado de ver seu caminho (na ilha) se encerrar onde tudo começou.”

    Jeff Jensen – EW

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    “... Jack, o grande protagonista da série, foi um show a parte. Tente lembrar de como conhecemos o médico 6 anos atrás: O homem da ciência!! Até chegar onde chegou, Jack precisou perder amigos, precisou sofrer, lutar, cair. Mas o mais importante de tudo é que ao abraçar o destino, Jack fez o mais importante…salvar a ilha. Com isso, despediu-se do mundo real deitando perto do mesmo local, com o mesmo cachorro, no mesmo estado físico do episódio piloto. Jack fechou os olhos com a certeza de que seus amigos estavam a salvo e com a confiança de que cumpriu sua missão. Parabéns Jack, você fez exatamente o que todos os fãs esperavam, foi um líder e que grande líder.”

    Caio Mello – Apaixonados por Séries
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    “Eu realmente queria ser emocionalmente recompensada e me sinto sortuda o bastante por ter recebido isso. Se aqueles últimos minutos não te emocionaram, respeito isso. Já passei por essa situação com outras séries. Sei como é ter uma reação fria com algo que você realmente queria gostar.”

    Maureen Ryan – The Watcher (Chicago Tribune)

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    “O tocante e profundo final que Damon Lindelof e Carlton Cuse nos deram, conseguiu responder o desafio (de apontar o significado das duas realidades exploradas nessa temporada). O da ilha, conforme vimos, importava muito para o destino físico daquelas pessoas. (E os puristas ligados ao sci fi que malharam o final espiritual, deveriam pelo menos considerar isso: o que acontece, realmente aconteceu). Já o daquela outra realidade importava porque representava o desfecho espiritual, moral e das almas daqueles personagens.”

    James Poniewosik – Tuned In (Revista Time)

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    “Como um episódio estendido de Lost, penso que grande parte dele funcionou com grande impacto. Mas, como alguém que passou pelo menos parte dos últimos seis anos convivendo com questões que não foram respondidas... Não posso dizer que tenha achado ‘The End’ totalmente satisfatório, nem como fim de temporada nem de série.”

    Allan Sepinwall – Hit Fix 

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    “Analisando o final sob a perspectiva da mitologia, não foi a melhor encerramento. analisando sob a perspectiva da trama, provavemente também não foi o melhor... Mas, analisando sob a perspectiva emocional, esse final da série foi uma obra prima.”

    Ryan McGee – Zap2It

    ***

    “Era humanamente impossível oferecer respostas práticas a todas as dúvidas, grandes ou pequenas, levantadas ao longo da série. Mesmo porque, muitas delas podem ter sido incluídas apenas como signos interpretativos, sem intenção de uma explicação racional. Assim sendo, no último episódio, os roteiristas trocaram a história pelos personagens. Nunca tiveram, de fato, a intenção de oferecer respostas que pudessem contentar a maioria. Assim, os roteiristas e produtores optaram em responder algumas dúvidas acerca dos personagens (situações e relações), dando aos fãs, a quem eles sempre agradeceram pela companhia, uma despedida sentimental.”

    Fernanda Furquim – Revista TV Séries

    ***

    “ Nós, fãs de Lost, perdemos nossa ‘constante’ – a série com a qual nos conectamos com a alma de forma profunda por seis anos, e parece que não perdemos apenas uma série de tv, mas sim um verdadeiro amigo... Obviamente, cada um reage de forma diferente frente esse final, mas para mim particularmente, foi a experiência de tv mais catártica que já tive.”

    Kristin dos Santos – Watch with Kristin 

    ***

    “Quanto às respostas que ficaram no ar, confesso que apenas esperava pela resposta final: a de como as duas realidades iriam se encontrar. Isso, sim, era importante para mim, a ponto de me forçar a reexaminar a trama da realidade paralela, a temporada e a série como um todo. E daí que não responderam por quê Walt era importante, ou por quê as grávidas morriam? Não estou nem aí para Walt; e penso que este último episódio foi uma verdadeira homenagem aos fãs da série - e à série em si.”

    Daniel Levi – Papo Série 

    ***

    “A quem pensava (como eu) que a ciência explicaria tudo resta um grande “só lamento”. Mas não é difícil compreender esta explicação do final e fazê-la encaixar com todas as seis temporadas anteriores. Pensando bem, quem acreditou nessa hipótese durante toda a duração da série deve estar com um grande sorriso no rosto até agora. E, ah, como eu queria nunca ter desistido desta ideia!”

    Camila Saccomori – Fora de Série

    ***

    “E qual o sentido de no além a galera ter outra vida, casar com outras pessoas? E o filho do Jack é quem, alguém pode me dizer? Um anjinho que foi fazer figuração para o coração do Jack se alegrar? Aí eles encontraram as almas das pessoas que tinham amado na, hã, outra vida e, com um toque mágico, despertam para a realidade, digo, para o além, para onde estavam e ficaram prontos para fazer a travessia, e entenderam que o que viveram na ilha foi a parte mais importante de suas vidas. Era esse o mistério da realidade paralela? Alguém REALMENTE achou isso genial?”

    Claudia Croitor – Legendado

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    “Lost contou a história da experiência humana, como todo mundo por aí tem tentado fazer. Imaginação é fazer isso através de um conjunto de histórias fabulosas, fantásticas, literárias, ao invés de me apresentar uma minissérie HBO sobre a Idade da Pedra. É fazer um tratado sobre a circularidade do tempo enquanto joga elementos quase despretenciosos aqui e ali durante seis temporadas. É deixar pontas soltas porque a vida não amarrou todas elas. Boa parte da literatura moderna surge a partir de um grupo de pensadores que descobriu que não há coerência em ser coerente. Aviso novamente àqueles que não prestaram atenção: a vida não amarra pontas.”

    Vana Medeiros – Spoiler Cotidiano

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    “Nada vai nos roubar a emoção de estar naqueles abraços que celebraram o amor e a paz que envolvem os que seguem juntos dos seus para um voo maior. Nada vai nos tirar a sensação de que, após uma saga de dúvidas e fé, desilusão e esperança, quando os olhos se fecharam, a luz de “Lost” se fez presente não pela última e mais bela vez, mas para sempre. Para todo o sempre.”

    Carlos Alexandre Monteiro – Lost in Lost

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    Por que era tão importante salvar a ilha e qual o significado da mesma aparecer submersa naquele outro plano? Essas e muitas outras questões estarão no Dudecast #55 que vai pintar por aqui ainda nesse final de semana. Tá imperdível, garanto!

quinta-feira, maio 27, 2010

Lost – The End


Por Fábio Yabu no blog dele



Imagine que você está numa ilha deserta. Não tem fome, mas comeria, nem sede, mas tomaria um suquinho. A brisa acaricia seu rosto e o barulho das ondas aquece seus ouvidos. Em sua mão, está uma garrafa de vinho, como a de Jacob. Você a gira, gira, gira, vira de cabeça pra baixo e, graças à uma rolha, o precioso líquido não sai.
Agora, imagine que o vinho é algo menos vil que o mal encarnado. Trata-se apenas dos lugares comuns, do marasmo criativo, dos pontos de virada, dos casamentos em final de novela, Syd Field. E a rolha é a ilha de Lost – que durante seis anos, impediu que esses males tocassem nossas vidas.
Aí vem um desgramadumafiga e me quebra a garrafa.
Quase tudo já foi dito sobre o final de Lost. Não vou ficar aqui contando quantas horas da minha vida gastei assistindo às seis temporadas (85), exigindo respostas que eu já sabia que nunca viriam, nem discutindo os méritos dos criadores. Vou me limitar a dar a minha opinião, que reflete as dicotomias da série.
Amei o final de Lost. Foi bonito e tocante. Encerrou de maneira digna a jornada de seus personagens, nos deu algum conforto e uma boa dose de reflexão. Em termos narrativos, foi perfeito, satisfez a todos que acreditam no velho papinho de que “é sobre os personagens”, satisfez a quem, como eu, já tinha desencanado dos mistérios, satisfez a dona-de-casa que há em cada um de nós.
Porém, como num flash-sideway, odiei o final de Lost. Com a garrafa quebrada, não teve rolha que segurasse a enxurrada de clichês que atingiu o mundo. Teve beijo, teve “eu te amo”, “eu também”, teve luta (na chuva!) do mocinho contra o bandido, teve reencontro com o pai, não teve casamento, mas teve igreja.
E teve o diabo do purgatório, a verdadeira natureza dos flash-sideways (se você é daqueles que acham que todos morreram no primeiro episódio, por favor, assista de novo). O problema pra mim não foi a saída criativa em si, mas o fato de que qualquer outra série poderia ter terminado com os personagens se dando conta de que estão mortos.
E Lost nunca foi uma série qualquer. Lost transformou palavras como “constante”, “números”, “escotilhas” e “candidatos” em histórias. Bastava um 23 ou um nome riscado aparecerem na tela, para que teorias incendiassem as redes sociais – fenômeno aliás, indissociável da série.
Durante seis anos, Lost ousou em temas como fé, ciência, religião, amor, viagens no tempo, vida após a morte. Palavras que parecem se acotovelar quando colocadas numa mesma frase, usadas para contar uma história. Que pode não ter tido nem pé nem cabeça, mas que nos fez pensar, chorar e, acima de tudo, nos divertir.
Por isso, encerro a jornada grato e satisfeito. Lost terminou sem um final à altura. Mas como disse o próprio Jacob (o maior perdido de todos, cá entre nós), qualquer coisa que acontece antes, é apenas progresso.


quarta-feira, maio 26, 2010

Ainda Digerindo o Final de Lost

Por Eduardo Coutinho Via GoogleBuzz




Eu falei várias vezes que o MEU final para Lost, o que estava na minha cabeça, era melhor que o verdadeiro. Talvez agradasse mais ao público porque teria algumas respostas (palavra maldita) a mais e reflexões a menos para fazer.

De qualquer forma, minha última epifania sobre a série foi de compreender que a ela sempre foi muito maior entre os fãs do que poderia ser na tela. E não entendam isso como uma crítica porque na verdade essa foi a sua grande qualidade. Sem pessoas com quem compartilhar essa "experiência" a serie teria sido muito menor do que foi.

E se no fim, J. J. Abrams resolveu mostrar o final dele e não o meu, tudo bem.



Análise de "The End", por Rafael Savastano



Nosso amigo e colaborador Rafael Savastano nos permitiu reproduzir sua excelente análise sobre o final de Lost. Originalmente publicado no seu blog"Análises de Lost", o texto faz uma reflexão inteligente, informativa, emocionante e imperdível para quem é fã da série (gostando ou não do final) e participou dessa jornada. O comentário é longo, mas a leitura vale a pena! Aproveitem para visitar o blog do Rafael e ler as análises dos episódios anteriores. Copiado também lá do Dude We are Lost.

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Vou tentar exercitar meus poderes telepáticos, de origem místico-científica e arriscar um palpite: essa não é a primeira resenha, crítica ou análise do Series Finale de LOST que você, leitor, está lendo. E digo mais, provavelmente a maioria das análises que você já leu discorriam não apenas sobre o enredo de Lost, mas também sobre a experiência pessoal do autor com a série, certo?

A métrica mais infalível para discernir uma obra de um fenômeno cultural é avaliar o quanto da própria vida as pessoas associam à vida da obra. Não tenho vergonha de admitir que Lost está para sempre misturada à história dos meus vinte-e-muitos anos. Muito mais do que uma série televisiva em 114 capítulos, Lost era, no início, uma obssessão de tempo integral, que permeava hábitos de leitura, pesquisas na Wikipedia, horas e horas surtando em sites enigmáticos cuja relação com a série era vaga, na melhor das hipóteses. Era uma das melhores desculpas para fazer amizades de toda a década de 00, e grande parte do meu círculo social atual nasceu nas madrugadas desesperadas atrás de links para baixar os episódios, que eram assistidos sem legenda, conforme iam chegando, para serem então discutidos até quando o sono permitisse. Qualquer coisa levemente parecida com uma pista perdida num canto de um frame que só era visto na transmissão em HD era motivo para mil teorias. Os erros de continuidade e de produção não eram perdoados. A mitologia da série se misturava à "mitologia" do próprio grupo de amigos que se conheceu através dela. Como entre os personagens da série, também houveram muitos romances, muitos rompimentos, brigas, polarizações, alguns bebês, e - felizmente - nem de longe tantas mortes, mas certamente um ou dois sumiços dramáticos e inexplicáveis. Como eu disse na análise de "What They Died For," a linha entre os protagonistas e os espectadores de Lost é tênue, e portanto não tem como analisar a jornada completa de Lost sem passar pela contribuição pessoal.


Durante essa minha jornada particular, eu vivenciei bem cedo a revolta que muitos agora direcionam para o Series Finale. Apesar de ter sido rotulado de "massa de manobra de seita messiânica" por causa do meu review positivo de "Across the Sea," a verdade é que eu desencantei da vertente pseudo-científica de Lost muito antes da maioria das pessoas, no final da segunda temporada, quando "eletromagnetismo" era um eufemismo para "energia que faz o que os roteiristas quiserem que faça." Meu lado sci-fi geek é MUITO geek. Não precisou chegar nem perto de viagem no tempo, que dirá de luz mágica dentro de caverna, para que eu me afastasse de Lost, esfriasse a cabeça, e depois me reaproximasse já encarando a série como um drama sobre pessoas onde a mitologia é um veículo, não um destino. Sob essa abordagem, a de que nem toda mão de treinador de cavalo em cena é uma pista, e de que os mistérios servem para testar a fé dos personagens, não para premiar telespectadores-detetives que venham a desvendar "o final" com antecedência com algum troféu imaginário - nesse aspecto, "The End" é um finale absolutamente digno para uma série que, dentro de seus acertos e (não poucas) falhas, fez história como um verdadeiro marco cultural e pairou acima da maioria das obras televisivas desse início de século. Antes de qualquer coisa, vamos tirar da frente algo que me incomoda profundamente em qualquer conversa sobre Lost: é evidente que os produtores foram escrevendo a história ao longo da série. Isso não é detrimento NENHUM ao roteiro. Toda história foi escrita em algum momento. Lost começou como uma cena imaginada na cabça de J.J. Abrams durante um vôo. Naquele momento, não existia final, nem mistério, nem nada, era apenas uma queda de um avião. Li em algum lugar que, quando fez o pitch da série para a ABC, Abrams só tinha planejado até o momento da descoberta da escotilha. Ainda não existia final. Os bad numbers, que viraram ícone da série, foram criados por David Fury quando ele ainda trabalhava na série, antes de deixá-la por 24 Horas sem ter escrito qualquer explicação lógica para eles - a explicação ficou por conta de Javier Grillo-Marxuach (que por sinal foi o criador da Iniciativa Dharma) num ARG que ele comandou depois de ter saído, ele mesmo, da série, ao final da segunda temporada, e que foi criado justamente para tentar fechar algumas das questões que não eram centrais à trama, mas que tinham sido introduzidas pelos roteiristas na época em que Lost ainda era uma série sem data para acabar (e consequentemente carente de enredos que a mantivessem por tempo indefinido). Encaremos a realidade dos fatos. Até o final da segunda temporada, Lost era uma série muito rentável que a ABC pretendia estender por quanto tempo pudesse. Durante dois anos, o importante era sustentar a narrativa, e não dosar meticulosamente pistas para um final que já estava garantido. Foi só durante a crise do mid-season da terceira temporada que Damon Lindelof e Carlton Cuse resolveram ter uma conversa séria com a ABC e exigir que a galinha dos ovos de ouro deles ganhasse uma data de fim, e temporadas mais curtas que não tentassem competir com 24 Horas no número de episódios. Era isso, ou sacrificar ainda mais os índices de audiência, porque o público não ia mais comprar jogo de espelhos e fumaças por muito tempo, e a série precisava de um rumo. A partir daí, sim, as temporadas passaram a ter coesão narrativa e uma espinha dorsal que unia as pontas. Assim como a maioria das pessoas, eu também passei por uma fase na infância e adolescência em que escrevia contos. Eram uns contos bem sem-vergonhas, mas a maioria deles germinava de uma cena que brotava na cabeça, e daí crescia para sua explicação. O importante era a ambientação e o impacto da cena. Essa filosofia também era aplicada nas mesas de RPG que eu mestrava. Muitas aventuras de mistério e terror que meus players lembram até hoje (sempre fui fã ardoroso de Ravenloft, nem imagino o porquê) nasciam de cenas soltas que eu imaginava serem assombrosas para os jogadores, e dali em diante, conforme o desenrolar das aventuras, a explicação dos mistérios ia surgindo como consequência das pistas, e não o contrário. Me desculpem se estou decepcionando alguém, mas as duas primeiras temporadas de Lost foram certamente escritas da mesma forma. Com muito mais técnica e competência envolvidas, claro, mas ainda assim, Lost é um mistério escrito de fora pra dentro. Isso significa que os produtores trapacearam? Claro que não. Vocês ficariam surpresos com a quantidade de histórias com reviravoltas e enigmas que são escritas desse jeito, e para desbancar de vez a tese de que elementos inseridos depois do primeiro capítulo são irrelevantes e/ou encheção de linguiça, só menciono dois personagens que surgiram como participações especiais e foram ampliados por causa da resposta do público: Desmond David Hume e Benjamin Linus. O quão irrelevantes eles soam para vocês? Pronto, agora que isso saiu do meu peito, posso falar sobre "The End" em paz. Não vou repetir o que muita gente mais entendida que eu já falou sobre como Lost reinventou sua própria estrutura estilística ao longo das temporadas, e como isso é genial e tudo o mais. Quem me conhece sabe que um dos momentos mais chocantes da minha vida enquanto telespectador de teleséries foi o último capítulo da terceira temporada, em que todos assistimos por mais de uma hora a cenas do futuro sem saber do que se tratavam, e tomamos na cara aquela aparição de Kate e aquele "We have to go back!" Nenhum outro momento de "te peguei" na séire desde então teve um impacto tão forte quanto aquele. Nem mesmo a última reviravolta de "The End," aquela que explica finalmente a "realidade paralela" que vínhamos acompanhando desde o início dessa temporada, mas rapaz - chegou bem perto. Ao ponto de eu por um momento não entender o que estava vendo, e subitamente, como um raio, tudo ficar claro, e meus olhos se encherem de lágrimas. Não me importo que tenha sido a reviravolta mais descaradamente espiritual da série até a data - nunca me incomodei com espiritualidade em obras de ficção científica, inclusive porque é um recurso manjadíssimo pra quem não estreou no universo nerd com Lost - aquela cena me deixou moído, com cara de paisagem, me sentindo mais uma vez ludibriado, da forma boa, pelos produtores (eles sempre disseram que *a Ilha* não era o purgatório... boa, Darlton, muito boa). Injetou significado retroativamente em todos os episódios da temporada, e todas as estranhezas e as coincidências das vidas que os Losties levavam nela se encaixaram de forma cristalina. Eles precisavam uns dos outros. Precisavam se reencontrar, mesmo que além do plano mortal, para seguir em frente. E que metáfora filha da puta para nós, espectadores-protagonistas, que também tivemos que deixar a Ilha, e que também precisamos seguir em frente depois de termos sido parte de Lost por seis anos. A sexta e última temporada de Lost tem na resolução de seu enredo um motivo apenas secundário. O principal, o essencial, era a despedida. O fim da jornada que foi assistir - e produzir - Lost. Um tema que fala forte àqueles que realmente se envolveram com a série, não aos que assistiam aos pedaços, sem atenção, procurando cenas ou diálogos patronizadores que preenhcessem listinhas frias de "perguntas sem respostas." E por se envolver, quero dizer se envolver com a história, não necessariamente ficar obcecado por cada minúcia, por cada campanha de marketing, por cada spoiler vazado, etc. Quero dizer se importar mais com o bem estar de Jack, Kate, Sawyer, Hurley e tantos outros, do que com a ilha que uniu nossas vidas às deles. E, diga-se de passagem, para quem tinha se decepcionado com a "Luz dentro da caverna" de Across the Sea, o series finale de Lost deixa bem claro que não sabemos nada de nada. Não havia uma bola flutuante de luz dourada dentro de uma caverna de pedra, e sim um ambiente com sinais claros de intervenção inteligente, com mecanismos, com mais enigmas separando mesmo os candidatos empossados da verdadeira natureza do poder da ilha. Os órfãos da pseudociência podem se esbaldar em teorias pelo resto da vida aqui, desde civilização Atlante até Exogênese, porque essa é a parte que os produtores deixaram de legado para os fãs (e para a Disney, que certamente vai continuar ordenhando essa mitologia por algum tempo). Eles foram bem específicos quando disseram que a história que eles iriam terminar de contar era a dos passageiros do vôo 815 e dos amigos e inimigos que cruzaram seu caminho. O que realmente é a luz, o que realmente é o monstro, o que realmente é a Ilha... para isso existem gazilhões de teorias na internet muito mais elaboradas do que eles jamais se prestariam a criar. A falta de respostas não é uma trapaça, é uma concessão. Lost é dos fãs, também, e já que eles se apropriaram tão ferrenhamente da mitologia, para quê estragar a explicação pessoal de 99,9% deles para fazer 0,1% felizes por uns poucos dias, enquanto ainda tiverem fôlego para dizer "eu avisei"? Não faz sentido. O episódio final de Lost foi arrebatador porque me deu exatamente aquilo que eu queria ver, e em quase todas as ocasiões, com atuações memoráveis de todo o elenco. Retiro o que disse semana passada, que preferia que a missão de Desmond no flashpurgatório tivesse começado mais cedo na temporada, porque não poderia ter sido diferente. Não ia ter o mesmo impacto ver o "despertar" de cada um dos Losties se não fosse tudo de uma vez, com a trilha sonora do Giacchino debulhando, e culminando na cena da igreja ecumênica. Quase todos os reencontros me levaram às lágrimas, alguns (o ultra-som de Sun, o parto de Claire, e a monstruosa cena de Sawyer e Juliet), confesso, ao choro compulsivo. Só o final de Sayid é que destoou horrendamente do resto, acho que de propósito - já que o Naveen Andrews, apesar de competente em cena, sempre desdenhou da série na mídia para quem quisesse ver. Unindo isso à atuação claramente para-cumprir-contrato da Maggie Grace e tivemos a cena mais dispensável do finale. Mas essa foi a única cena realmente ruim. Algumas outras ficaram meio dispensáveis, como aquele pulo do Jack na última cena antes do intervalo de seu confronto final com FLocke, que beirou o pastelão. Mas não chegou a estragar a porrada, que foi épica (E um parêntese aqui para quem disse não ter entendido o papel de Desmond na derrocada do Homem de Preto, é bastante óbvio - Desmond tirou a Ilha da tomada e o deixou mortal por tempo suficiente para Kate, numa participação digna da Kate das primeiras temporadas, enfiar uma bala no infeliz e acabar de vez com a ameaça do fumacento. Jacob pensa em tudo!). E eu esperava um tiquinho mais do Jorge Garcia na cena em que - outra reviravolta maravilhosa que me marejou a vista - Jack repassa a ele o bastão de protetor da Ilha antes de dar sua vida pela causa que levou seis temporadas para aceitar. Aliás, que cena fenomenal aquela em que ele diz ao Flockezilla que este desrespeita a memória de John ao usar seu rosto. Jack foi escrito para esse momento, e se seus episódios ao longo da série eram sempre fillers chatos, nesse último ano ele mereceu realmente o posto de protagonista central que estava há tanto tempo guardado para ele. Quanto ao Jorge, ele compensou o deslize nessa cena com duas outras cenas tocantes com Michael Emerson. Aliás, falando em Emerson, ele e Terry O'Quinn fecharam seus personagens magistralmente. Cada cena com Ben e Locke (e FLocke) nesse episódio é uma aula. O diálogo entre os dois na porta da igreja é possivelmente a melhor cena que eles dividiram na história da série, talvez empatando com a cena final de "The Life And Death of Jeremy Bentham," sem o impacto violento desta, mas com dois diálogos paralelos acontecendo, um verbal e um só de olhares. Dois gênios em cena. E como negar que Josh Holloway segura a cena com Liz Mitchell em pé de igualdade naquela que foi a mais aguardada e emocionante cena de despertar? Diabos, até a Evangeline Lilly segurou uma cena como "gente grande," quando tem aquela conversa com Jack no fim do show beneficente. Em seis anos de série, ela nunca tinha me convencido como me convenceu com aquele "I missed you so much." E o que dizer das expressões de Daniel Dae-Kim e Yunjin Kim quando, já cientes de quem são, conversam com um ainda confuso James Ford no hospital? Poderia rever aquela cena mil vezes. No geral, The End é um episódio para ser sentido. Tem, sim, sua dose de ação - muito bem dosada e dirigida, diga-se -, de idas e vindas, com o trio Lapidus, Miles e Alpert consertando o avião e parando em cima da hora para Sawyer, Claire e Kate embarcarem, com o confronto final entre Jack-ob e Flocke, e toda aquela autoreferência certeira comparando a caverna com a escotilha da Estação Cisne, mas a essência do episódio está nas atuações, nas resoluções pessoais de cada um dos Losties, nas cenas que os produtores deram para cada um dos membros do elenco, e que a maioria aproveitou muito bem (Até o Dominic Monaghan e a Elizabeth Mitchell, que nem eram mais do elenco fixo, representaram de corpo e alma suas cenas, o que só aumenta minha vergonha alheia pela Maggie Grace e pelo Naveen Andrews). É um episódio sobre a própria série, sobre como nós vivemos intensamente essa Ilha por seis anos, vendo muitos de nossos companheiros se revoltarem e abandonarem a série, vendo a própria série se reinventar para se tornar um projeto fechado, sobre como os episódios bons nos tocaram e os episódios ruins nos revoltaram, e sobre o que fazer agora que as cortinas cairam. Seguir em frente, dizem Carlton Cuse e Damon Lindelof. Aprender com a experiência, guardar dentro de nós mesmos o que ficou de bom, e partir para a próxima. Como temos mais sorte do que os Losties, não precisamos esperar até o próximo passo no ciclo da existência para recuperar os laços perdidos. Estamos todos aqui, bem ou mal. E só esperando a próxima aventura que virá nos tirar o sono e nos fazer viver um pouco da fantasia compartilhada que deixou sua marca em tantas vidas de tantos grupos de amigos. Como diriam os guardinhas da cena final de O Show de Truman... vamos ver o que mais está passando? ;)


    Comentários de 'The End' o Series Finale de Lost


    por Davi Garcia no Dude We are Lost


    Não há certeza maior na vida que sua finitude. Sejam lá quais forem os caminhos que trilhemos ao longo dessa fascinante e misteriosa jornada, são os erros e aprendizados que ajudam a dizer quem somos. Mais que isso, são os relacionamentos que construímos nessa caminhada, que ninguém consegue fazer sozinho (como pontua Christian Shephard em momento chave desse episódio), que servem como testemunho irrefutável do que fizemos e do impacto que provocamos nas vidas uns dos outros.

    Ao longo desses seis anos, uma série de tv nos mostrou a história de pessoas que perdidas em suas jornadas, descobriram numa ilha remota e cheia de mistérios particulares, não o fim, mas o meio para que se encontrassem. Em Jack, Locke, Hurley, Sawyer, Kate e cia, nos vimos refletidos em suas falibilidades, tragédias e conquistas. A ilha? ‘Só’ um lugar de propriedades singulares capaz de catalisar a reunião daqueles que buscavam uma redenção que sequer admitiam procurar. Lost foi uma série sobre pessoas, mas sobretudo para pessoas. Gente como você e eu, que questiona o sentido da vida e que se emocionou com a resposta da principal pergunta levantada ao longo desse período (uma que sequer havíamos considerado no meio de tantas, diga-se): a vida como conhecemos, tão refém de nossa fragilidade física de fato acaba aqui, mas será que isso significa mesmo um fim?

    O desfecho de Lost, obra que despertou em todos nós paixões variadas e distintas, veio acompanhado de um gosto agridoce. Se por um lado o ‘The End’ significou a conclusão elaborada, envolvente e emocionante da trajetória daquele grupo de pessoas que enfim pôde se encontrar num plano que não obedece as regras do espaço e do tempo, por outro significou a despedida definitiva de amigos com quem tanto aprendemos ao longo desse período e que agora só poderemos revisitar nas lembranças afetivas de vários momentos marcantes. Nos traumas e conflitos de cada um daqueles personagens, tivemos a oportunidade de confrontar nossos temores, nossas dúvidas e principalmente nossas certezas. E mesmo que não soubessem disso, Jack e cia nunca estiveram sozinhos naquela ilha. Se torcíamos, vibrávamos e nos emocionávamos com eles e por eles, era porque enquanto espectadores, também ficamos presos em meio a situações que não se encerravam na luta por sobrevivência ou em disputas de razão x fé, destino x livre arbítrio ou bem x mal. Nos encontros daquela realidade paralela (ela sim o próprio purgatório), os choques de consciência plena que vieram acompanhados pela paz há tanto procurada, só foram possíveis quando cada uma daquelas pessoas enxergou através do amor, os relacionamentos que construiram ou reconstruiram na ilha. Afinal, foi lá que Jin e Sun se reencontraram enquanto casal; que James ‘Sawyer’ Ford viu em Juliet (e ela nele, claro) o porto seguro que sequer sabia existir; que John Locke encontrou num milagre a auto-estima e o amor próprio há tanto perdidos, e que Jack Shephard descobriu no amor de Kate (sim, ela escolheu por ele no fim das contas) e no entendimento de que era preciso dar a própria vida para que outros tivessem uma chance, o caminho de um recomeço espiritual pleno e harmonioso. O que ‘The End’ evidencia para nós em seu desfecho é que as dores, os sacrifícios e as mortes que aqueles personagens experimentaram na ilha ao longo dessa trajetória nunca foram em vão. O que eles viveram e sentiram foi uma passagem, um estágio de aprendizado cujas lições só seriam efetivamente compreendidas em sua plenitude num outro plano. Um no qual reconciliações ganham forma quando uma vítima perdoa seu assassino, permitindo-se seguir em frente na certeza de ter encontrado o verdadeiro sentido de ser especial e onde a palavra redenção se explica não pela chance de consertar algo, mas sim pela possibilidade de poder lembrar para seguir em frente.
      Todo espetáculo tem que terminar, mas é duro ter de se despedir de artistas tão queridos e ver a cortina se fechar num último adeus sem direito a bis. Obrigado Lost por esses seis maravilhosos anos de diversão, entretenimento inteligente e sobretudo pelos muitos momentos de emoção e reflexão. A beleza de seus personagens, sua música, suas ideias e sobretudo de sua companhia me fará muita falta e será para sempre sentida, porém jamais esquecida.
      I just don't want to let it go
      ***
      Muito mais sobre esse impactante final da série em outros posts que surgirão em breve por aqui.