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domingo, agosto 22, 2010

O Fim do Mundo através dos tempos.

por Isaias Malta do  Blogpaedia



Fim do Mundo - 2012A humanidade sempre viveu e sempre viverá às voltas com fins do mundo antevistos em profecias apocalípticas. Qual é a razão de estarmos permanentemente sacudidos pela sensação de finamento? Talvez, o avanço inexorável ao fim, imposto pela perecibilidade, evoque nas mentes e corações imagens do “mundo” que se desboroa. Será este mundo o de cada um individualmente, ou o medo inconsciente coletivo perante a extinção da espécie humana? As respostas você obterá somente nas conclusões ao final do texto.

65 milhões de anos atrás – o Armagedom dos dinossauros.
Fim do Mundo - Armagedom dos dinossaurosO verdadeiro fim do mundo até hoje aconteceu quando um asteroide de 15 km de diâmetro se chocou contra a terra na península de Yucatán, México a uma velocidade de 70 mil km/h. O resultado da explosão equivalente à explosão de bilhões de bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Nagasaki e Hiroshima em 1945. Tal cataclismo mudou tanto a face do planeta, que seus efeitos catastróficos perduraram pelos próximos 1,5 milhões de anos. Mesmo assim, o mundo insistiu em não acabar.
» Especialistas garantem que meteorito gigante ditou fim dos dinossauros.
» Revista Ciência Hoje número 269.

3.150 A.C. - Dilúvio.
Fim do Mundo - DiluvioAo contrário do que apregoam os céticos, o Dilúvio pode não ter sido um fenômeno localizado, mas
havido em escala global. A causa provável do Dilúvio bíblico foi a consequência do choque de um gigantesco meteoro contra a superfície da terra.
» Diluvio, Pirâmides e Stonehenge. 

1910 – cometa Haley.
Fin du Monde - Cometa HaleyJá que o mundo insistiu em não acabar na vidada do milênio entre os séculos XIX e XX, mais uma oportunidade foi dada ao acabamento, precipitada pela passagem do cometa Haley nas proximidades da órbita do planeta terra. Até souvenirs do “Fin du Monde” foram vendidos em homenagem à catástrofe. Passado o susto, a humanidade respirou aliviada e caminhou a passos firmes para a sua maior tragédia até global então: a 1ª Grande Guerra Mundial.
» 1910 End of World Souvenir.

1938 – a Guerra dos Mundos.
Fim do Mundo - Guerra dos MundosUma trivial radiofonização da novela de H. G. Hells “The War of the Worlds” feita pelo genial Orson Wells lançou Nova Iorque no caos naquele 30 de outubro, porque a população estadunidense acreditou realmente que os marcianos estavam invadindo a terra.
» The War of the Worlds.




1999 – o fim do mundo na hecatombe nuclear.

via “Que mundo Maravilhoso!” 
O mundo perdeu várias chances de acabar em mais uma virada de milênio. Foram por água abaixo coisas como: profecias de Nostradamus, a segunda vinda de Cristo, o início do reinado do Anticristo, o início da guerra nuclear, etc. Nem o famoso Bug do Milênio, que iria travar os computadores do mundo inteiro, se realizou na maneira apocalíptica como a mídia vendera o peixe.
» 45 failed predictions for 1999.
» Bug do milênio. 

2001 – 11 de Setembro.
Fim do mundo - 11 setembroSe o fim do mundo não aconteceu na virada do milênio, ele não tardaria a ameaçar a humanidade pela via do cinematográfico atentado terrorista, hoje conhecido simplesmente como o “11 de Setembro”. Apesar da pouca monta, ele representou um duro golpe no coração do mundo civilizado devido à simbologia envolvida: as duas torres supremas construídas no coração do comércio internacional foram postas abaixo simultaneamente. Terá sido o Armagedom do capitalismo? Só a história poderá elucidar a real importância deste marco.

2012 – o fim do calendário Maia.
Fim do Mundo - 2012O calendário Maia, um povo famoso por ter formulado o calendário mais exato de todos os tempos, termina no dia 21 de dezembro de 2012. O corolário disto é que muitos interpretam este término como o Fim do Mundo. Ironicamente, os Maias não previram o seu próprio fim sob o jugo dos Astecas por volta do século XV, portanto, antes de Hernán Cortez ter destruído os Astecas na guerra pela conquista da América no século XVI, mais precisamente em 1519.
» The World will end in 2012

Depois de 2012 – a fuga para o espaço.
star lostSe o mundo não acabar em 2012 – e todo o histórico anterior indica que não – o próximo terror humano provém do esgotamento do planeta terra, devido ao abominável uso que fazemos dos nossos recursos naturais.

Quem lembra do seriado televisivo estadunidense Star Lost de 1976, que retrata a saga de uma gigantesca nave terrena levando espaço à fora os últimos remanescentes da civilização humana? A ficção mais uma vez inspira a realidade, pois o famoso astrofísico inglês Stephen Hawking assevera que a fuga da terra será dentro em breve a última cartada na luta para a sobrevivência da civilização humana. Será que conseguiremos desenvolver até lá tecnologia suficiente para exportarmos a nossa sujeira a outros planetas? O rotundo fracasso da Biosfera impede, por enquanto, que sonhemos tão alto.
» O fracasso da Biosfera artificial impede a realização da ficção de Star Lost.
» Stephen Hawking: a única chance do ser humano será fugir da Terra. 

Conclusões.
As profecias e os livros sagrados que alimentam as previsões apocalípticas retratam normalmente a trajetória do indivíduo, ou seja, um deles, o Apocalipse de São João colige visões primordialmente da vida do homem ao longo da sua trajetória iniciática, sem prejuízo das extrapolações para a civilização humana. Neste contexto, qual é o sentido do Fim do Mundo Global para uma pessoa que morrerá amanhã?

O que depreendemos das crendices apocalípticas é que elas menosprezam a saga do sujeito em função do todo, como se a “pequena morte” de alguém não fosse o evento apocalíptico mais importante na vida daquela pessoa. Para mim sinceramente, pouco me importa o destino da espécie humana, diante da imediatez do meu próprio Fim do Mundo, líquido e certo.

Enquanto o mundo não acaba, divirta-se com o «Fim do Mundo em belas imagens».

pos apocaliptico campo
pos apocaliptico campo noturno
pos apocaliptico carros
pos apocaliptico catedral
pos apocaliptico estacao de trem
pos apocaliptico helicoptero
pos apocaliptico loja
pos apocaliptico lojas
pos apocaliptico metro
pos apocaliptico praca vermelha
pos apocaliptico praca vermelha chuva
pos apocaliptico praca vermelha noite
pos apocaliptico praca vermelha neve
pos apocaliptico shopping
pos apocaliptico times square
pos apocaliptico kremlin



domingo, janeiro 24, 2010

O sumiço dos livros


do BLOG DA DAI


Era ano novo. Uma virada na vida daquele povo. Muitos fogos. Finalmente a liberdade! O decreto saíra minutos antes da meia noite. Homens, ministros e príncipes trabalharam muito. O povo estava livre. Não haveria mais livros naquele reino. Chegava de leituras, religiões, escolas, filosofia, romances, poesias, ficção científica, ficção.
Buba subiu as escadas, meio bêbado. Estava naquela casa havia muito tempo. Sempre fora um criado esmerado. Atencioso e servil. Não entendia direito todo aquele reboliço, aquela nova lei. Entendia, isto sim, daquela dorzinha no fundo do coração.
Soluçou, de álcool e dor. Urinou um pouco nas calças, mas dera tempo de ir ao banheiro. Pegou aquele cartaz de novo: “Caiu a leitura, livros nunca mais!”
O povo, todos falavam em ditadura intelectual. Homens inteligentes – antropólogos, sociólogos, etc. – falavam em reinvenção do Novo Homem. Nova era. Nova aliança.
Buba, simpático e obediente, correu para seu armário e juntou, com muito custo, todos os seus livros. E não lera a maioria. Começara a ler havia pouco tempo. Aos poucos, via desaparecer, no fundo da caixa de papelão Machado de Assis, a Bíblia, José de Alencar, Nietzsche, Castro Alves, Platão, Tio Patinhas, Playboys…
Suspirou quase resignado. Aqueles homens deveriam saber o que estavam fazendo. Eram agora uma ilha obtusa, pensou, com parada cerebral, cercada de países confusos por todos os lados.
Um Chanceler de uma grande nação considerara perigoso tamanha ousadia, abuso de poder. Sem livros, que país sobreviveria? Entretanto, a ilha era um paizinho fechado ao mundo, auto suficiente e muito bélico. Paradoxo serem eles tão tecnologicamente armados. Tinham até a tal bomba invisível, que matava pelo ar. Um assombro.
O pobre homem deve ter passado horas com Gonçalves Dias sobre as pernas, as velas estavam por um triz. Minha terra tem palmeiras… minha terra tem palmeiras… Acariciou um Lenin, bocejando. Estava tão orgulhoso de sua humilde biblioteca. Adormeceu, ouvindo sabiás.
Acordou com os cacetetes dos guardas. Estava sendo levado ao cárcere. “Memórias do cárcere”. Graciliano Ramos. A professora, os seios arfando sobre a, b, c, d, e… tão linda. Casaria com ela pouco depois. A cabeça doía. O sangue tinha gosto de revolução. Mas era século vinte e dois. Câmeras por todo lado. Chips nos pulsos. Nova era. Sangue e Charles Bukowski. Os seios da professora moreninha. Dormiu.
A primeira visão que teve foi de seu filho chegando com a mãe. Estivera sonhando. Riu, com a boca ressequida. O garoto subiu no colo do pai, o abraçou e beijou.
Buba perguntou: Quer que eu leia uma estória? Mas o filho arregalou os olhos para o pai e gritou: Mamãe, o pai endoidou! Buba, assustado, olhou para a esposa e o filho diversas vezes. Com horror piscava os olhos, enquanto o filho ria: Esqueceu que aqui não temos livros?!


quinta-feira, março 20, 2008

Arthur C. Clarke

Eu não ia ter como escrever tudo que eu acho que merecia a ocasião. Não pode passa em branco a despedida deste homem que foi um ídolo da minha infância, que com certeza foi figura importante na formação do meu caráter e do meu pensamento na vida adulta. Colocarei aqui textos de dois outros Blogs, que me foram enviados pelo amigo e chefe Coutinho. Meu sentimento é imprescionantemente parecido com o dos redatores. Espero que se eles souberem da minha citação, não fiquem chateados.

"Arthur C. Clarke, O Profeta do Futuro
“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica.”
Morreu ontem no Sri Lanka um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos, o grande e imortal Sir Arthur C. Clarke, que profetizou em mais de uma centena de livros muitas invenções que se tornaram realidade como o satélite artificial, o ônibus espacial, os super computadores e os sistemas de comunicação instantânea que todos nós conhecemos tão bem.
Nos anos 40, Sir Arthur defendeu a tese de que o homem iria pisar na Lua até o ano 2000, algo que era considerado impossível naquela época. Algum tempo depois, foi convidado para participar como comentarista das transmissões das missões lunares da Apollo 12 e Apollo 15.
Além de ter influenciado a criação de diversas tecnologias que usamos no dia a dia, Sir Arthur também foi uma enorme influência para diversos escritores, diretores de cinema e produtores de séries de TV. Em 1964 trabalhou com o grande diretor de cinema Stanley Kubrick para adaptar seu conto “O Sentinela”, que acabou se tornando o magistral filme “2001: Uma Odisséia no Espaço”.
Seus escritos despertam a paixão pela tecnologia em milhões de crianças ao redor do mundo, inclusive no blogueiro que digita estas linhas. Eu tenho uma enorme dívida de gratidão com Clarke por ele ter criado obras geniais como por exemplo “Encontro com Rama”, e posso dizer que se não tivesse tido um contato precoce com as obras de Sir Arthur e do seu velho amigo Isaac Asimov, eu jamais teria criado um blog sobre novidades tecnológicas.
Ele e Asimov inclusive criaram um tratado pessoal muito curioso, que estabelecia que sempre iriam indicar o outro como o melhor escritor de ficção científica do mundo. Nada mais justo, afinal, ambos estavam certíssimos.
Sir Arthur também é famoso pelas suas frases, simplesmente geniais. Citando o mestre: “Se nós tivermos aprendido algo da história de invenções e descobertas, é que, a longo prazo – e muitas vezes a curto prazo – as profecias mais audaciosas parecem ridiculamente conservadoras.”
Outro assunto que mexia com Sir Arthur era a questão da religião e o absurdo do Criacionismo, ele cunhou esta pérola: “Eu até defenderia a liberdade de adultos criacionistas praticarem qualquer perversão intelectual que eles quisessem na privacidade de suas casas, mas também é necessário proteger os jovens e os inocentes.”
Ainda falando sobre religião, Sir Arthur disse: “O conceito de que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança é como uma bomba relógio nas fundações do Cristianismo”.Sir Arthur cunhou as Leis de Clarke, que estipulam:
1. Quando um cientista renomado e experiente diz que algo é possível, ele está quase certamente certo. Quando ele diz que algo é impossível, ele está muito provavelmente errado.
2. O único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se além dele, através do impossível.
3. Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica.
Em reconhecimento ao seu legado, Clarke ganhou os prêmios Nebula Award em 1972, 1974 e 1979; e o Hugo Award of em 1974 e 1980, além de ter se tornado o Grande Mestre dos Escritores de Ficção Científica da América em 1986.
Seu último livro, The Last Theorem, co-escrito com Frederik Pohl, deve ser lançado no final deste ano.
Sir Arthur viverá para sempre no coração dos seus fãs, e nas estrelas de onde buscou inspiração para sua magnífica obra. Descanse em paz, Mestre, nós sentiremos muito a sua falta."
Visite o site da Clarke Foundation.
Confira aqui uma entrevista com o mestre, feita em 2004.
Via AP e BBC.
Do blog DIGITAL DROPS - http://www.digitaldrops.com.br


"Arthur Clarke (16.12.1917-19.03.2008)
Ele morreu e, como meus maiores ídolos (Sagan, Asimov…), não quis funeral religioso.
É bom, porque adoram inventar que grandes ateus da história humana ficaram religiosos perto do fim. O que não é verdade.
Arthur Clarke foi grande. Mudou minha vida, junto com alguns outros autores relevantes de ficção e divulgação científica. Quando eu era adolescente, cheio de idéias subversivas de que o mundo não era exatamente como andavam me dizendo que era, foram ele, Asimov, Sagan, Stephen Jay Gould e alguns outros cientistas e escritores que me ajudaram a entender que eu não estava só. Que aquelas idéias não eram tão estranhas e absurdas. Tendo sido criado numa família católica, eles foram minha vela na escuridão.
Todos foram embora. Ontem foi a vez de Clarke, o último deles. Deixou um legado indiscutível."
Do Blog de Alexandre Maron -http://www.alexmaron.com.br


quarta-feira, novembro 21, 2007

EXISTENCIAL

'Tava aqui, ouvindo o Nelson:


Sei que amanhã, quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha bom coração

Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro, um violão

Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora

Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça, agora

Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga
Para aliviar meus ais

Depois, quando eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade,
Quero preces e nada mais.



Então me lembrei de filme que eu assisti há muitos anos atrás, eu não me lembro o nome (infelizmente pois gostaria de assistir de novo, depois de tanto tempo). Este filme tinha uma estrutura bastante utilizada em filmes nos fins dos anos 80. Uma narrativa caótica sobre a vida de diversos personagens aparentemente desconexos, cujo vinculo entre eles vai se descortinando ao longo da história, só sendo possível entender o centro da narrativa ao fim do filme.

O que me chamou muito a atenção neste filme, ( e também a provável ligação mental que fiz com a música do Nelson) foi um diálogo que acontece do meio pro final do filme. Um dos diversos núcleos do filme é formado por diversos velhinhos que se conhecem (alguns amigos, outros nem tanto - cheios daquelas rivalidades que aparecem em qualquer grupo social). Estes velhinho vão morrendo ao longo da história. O diálogo que fixou este filme em minha memória ocorre exatamente entre um desses velhinhos seu interlocutor (que não me lembro se também era um velhinho) no dia seguinte ao funeral de um outro velhinho. Nesta conversa o homem revela ao seu ouvinte a sua preocupação com o próprio velório, pois as pessoas que ele acreditava que compareceriam estavam morrendo antes dele. O outro personagem, acha a preocupação um tanto descabida, afinal o velório só aconteceria depois da morte, momento em que não haveria motivos para se preocupar com quem seriam os espectadores do próprio enterro. O velhinho retruca que chega uma certa idade na vida, que a maior preocupação de sua vida é exatamente esta, quantas pessoas irão ao seu enterro. Dentro do filme filme esta preocupação do personagem revela varias nuances, uma vaidade (não querer que em seu próprio enterro estejam menos pessoas que no de um rival dentro do seu grupo social) e uma auto afirmação (querer demonstrar para seus descendentes o quanto a sua vida marcou a de outras pessoas).





Com essas duas formas de lidar com o próprio passamento, na cabeça, fiquei com vontade de falar alguma coisa a respeito das preocupações que eu mesmo tenha com o tema.

O difícil é que as duas formas antagônicas que me serviram de inspiração tem sua validade poética que admiro, mas não são aplicávei a minha realidade e a minha personalidade.

Eu faço questão de agir com as outras pessoas de acordo com a música do Nelson. Meu sangue italiano, além da minha postura nada politicamente correta sobre a vida, me faz demonstrar até com efusividade não recomendável, para o bem e para o mal o meu sentimento sobre tudo e todos a minha volta. Este comportamento meu faz com que, de cara as pessoas tenham liberdade de fazer o mesmo comigo, e num segundo momento, quase que as obrigam a agir da mesma forma que eu em relação a elas se houver um aprofundamento no relacionamento. Assim não tenho como me preocupar com farão por mim em vida ou na morte, por que quem interessa faz em vida.

Por outro lado não tenho descendentes a quem mostrar nada, alem disso com meu jeito completamente transparente, por vezes espalhafatoso e minha fidelidade canina para com os meus, fazem com que todos a minha volta enxerguem os meus relacionamentos de forma bastante clara, sendo muito fácil observar suas profundidades, suas virtudes e defeitos. Assim não tenho nada mostrar, nem para familiares, nem para amigos, nem para desafetos, após minha morte.

Assim sendo não me cabe preocupações acerca de como as pessoas com quem me relaciono proximamente viveram o luto pela minha perda, discorrerei eu então sobre o resto do mundo... as pessoas com quem não me relaciono proximamente, e com eles me preocupo deveras....


Veja o exemplo dos diversos donos de botecos que eu frequento, com minha ausência é provável que eles fiquem mais suscetíveis a aceitar as propostas ridículas dos vendedores da AMBEV, que só pensam em vender aquela água suja da skol, este processo que já acontece nos botecos que não frequento pode iniciar timidamente, mas se não encontrar a resistência de ferrenhos defensores da Brahma leverá a diminuição da sua oferta e quiçá a por fim a sua retirada do mercado ou seu renascimento como já aconteceu com outras marcas, do tipo lançamento da nova Brahma, com nova fórmula, novo sabor (igual ao daquela água amarela que já falei). Coitados dos bons bebedores, menos esclarecidos e menos intolerantes do que eu. Mais grave ainda pode ser ( o que eles já tentam com todas as forças há muito tempo) fechar exclusividade de fornecimento de bebidas inclusive refrigerantes. Pois não estarei lá mais para exigir a Coca-Cola.

A Coca-Cola Company com certeza será a pessoa jurídica que mais sentirá minha falta, não só pela incrível quantidade deste precioso liquido que consumo, mas por toda relação que tenho com ele. No dia seguinte a minha morte as vendas caíram, primeiro porque as minhas compras não mais se realizarão, depois as pessoas a minha volta não sofreram mais a influência de me ver beber este fantástico refrigerante com todas as feições transparecendo o imenso prazer que ele me dá. Sem esta influência positiva eles provavelmente não se sentiram induzidos desfrutar da mesma realização e não haverá a multiplicação dos consumidores através da imagem inequívoca do prazer auferido. A diminuição dos pontos de venda da qual já falei é o segundo passo deste processo de derrocada da empresa.

Haverá logicamente uma reação. Executivos de Atlanta tentarão reverter o processo ou pelo menos confiná-lo a região geográfica menor possível, serão vistas novamente propagandas excelentes "Coca-Cola é isso aí" músicas com ícones bacanas da musica pop, serão ressuscitados personagens importantes cridos pela empresa para a popularização do produto, como aqueles urso polares, e o Papai Noel vai acabar fazendo hora extra o ano inteiro para tentar evitar a queda nas vendas.

Todas essas ações de Marketing elevarão os custos da empresa, e no fim o produto ficará mais caro e o processo de diminuição do market-share da empresa retornará ainda mais fortemente. Com menos mercado começa o fechamento de fabricas, primeiro nos países de mão de obra mais cara e chegando por fim a China, neste momento a bancarrota da empresa estará completa. Milhões de pessoas desempregadas pelo mundo, a marca Coca- Cola ( a terceira mais valiosa do mundo, atrás de Pelé e Mickey Mouse) vendida a uma fabrica de io-iôs da Índia, que logo vai falir também pois não existirá mais aquelas promoções de empresas de refrigerantes para escoar a produção.

O mundo chegará então a um impasse terrível muitas pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza sem empregos e sem o prazer fácil de uma Brahma, ou mesmo de uma Coca-Cola, é inevitável a ocorrência de convulsões sociais, guerras civis em princípio, depois conflitos internacionais, hecatombe e fim dos tempos.

A vida não será fácil depois que eu me for. Ainda bem que eu já não estarei aqui para ver isso. Sorte pra quem fica.


ED


segunda-feira, setembro 17, 2007

NATÁLIA


Como dedicatória, em cada livro estava escrito: " Sou um cara bonito, bacana, inteligente, e só lhe ofereço este presente porque quero me casar com você, ou ao menos lhe comer". Não sei de onde lhe veio a certeza de que as mulheres não resistiriam a uma proposta tão direta, à uma frase tão incomum e "espirituosa". Mas o fato é que algumas realmente iam na dele e realizavam parte de seu desejo. Com a Ana, com a Mônica, com a Angélica, por exemplo, aconteceu assim. Elas adoraram o tom da dedicatória, e levando em conta um certo charme do rapaz, despiram-se e foram penetradas sob agradáveis noites em carro, motéis ou na rua. Contudo, nenhuma delas quis ir além, nenhuma entendeu seu principal objetivo, donde concluiu que talvez todas fossem iguais, e que jamais lhe seria concedida a graça do matrimônio. Ele andava triste por conta disso. Lamentava-se em botecos, no trabalho, e às vezes até chorava no colo da mãe. Sua esperança agonizava. Chegou até a pensar em suicídio. Nada sério, porém. Depois de analisar direito e constatar que o mundo era muito maior do que as desilusões experimentadas, decidiu tentar novamente. Formou a idéia de que melhor seria continuar vivo do que lançar-se prédio abaixo ou afogar-se com pedras amarradas nos calcanhares.

Certa noite, num bar do centro da cidade, enquanto discorria veementemente sobre sua precisão matrimonial, uma mulher, aparentemente vinda de lugar nenhum, aproximou-se e o cumprimentou com um irresistível piscar de olhos e com um sutil porém excitante mover de língua nos lábios. A moça era extremamente bela e parecia conter em si características de distintas mulheres: pele morena e seios fartos qual uma espanhola, olhos pretos e amaneirados como uma mineira, plena sinceridade e sorriso solto de uma baiana...O rapaz, que não era do tipo desprevenido, imediatamente sacou um dos livros que levara consigo: A noite na Taverna, do Álvares de Azevêdo. Não era de se estranhar que a escolha recaísse sobre tão obscura novela. Há três anos, por exemplo, dera de presente a uma secretária o Eu, poemas do Augusto dos Anjos; noutra feita, concedera a uma médica o Breviário de Decomposição, do Cioran; mês passado fora o Anticristo, do Nietzsche. Tanto seus presentes como sua dedicatória eram uma extensão de sua peculiar personalidade, de sua singular forma de tratar as mulheres e as pessoas em geral.

Depois de a moça receber o livro e olhar nos olhos do rapaz, comentou com sarcasmo: "Em primeiro lugar, meu verdadeiro nome é Natália. Não dou qualquer importância ao casamento. E se de vez em quando pratico a luxúria, é apenas para gozar no meu corpo, e rir da cara de homens como você". Ela não hesitou em rasgar as páginas do livro na frente dele, no compasso de um estridente e demoníaco sorriso. Diante dessas palavras e ações inusitadas, algo de fundamental aconteceu ao rapaz, e ele sentiu um extraordinário arrepio em todo o corpo; o coração dava cambalhotas e ao mesmo tempo chorava dentro de seu peito. Havia encontrado o que tanto procurara. Enfim sua busca tinha chegado ao termo, e seus sonhos, ao paraíso. Ele apaixonava-se terrível e mortalmente à medida que a Natália prosseguia: "Eu sei como você é. Sei como se comporta a espécie de homens da qual você faz parte. Preste atenção, moço: Eu não me enquadro em nenhuma casta de mulher. Eu sou a mulher, compreende? Eu sou todas as mulheres, tenho tudo que preciso, tudo que outras mulheres querem, tudo o que os homens procuram. Eu sou a Natália. Não tenho medo de nada. Posso fazer de qualquer homem um rei, um facínora ou um mendigo. Sei de tudo. Mas quanto a você, ainda não decidi o que fazer".

Nesse momento o rapaz já não sabia de si. Não tinha mais nada que lhe chamasse a atenção. Somente a mulher, somente ela. E ele se ajoelhou, como um miserável pecador, e com as mãos erguidas suplicou à Natália que fizesse qualquer coisa, qualquer uma, pois não havia mais escolha, ele já lhe pertencia para sempre. Todo a gente do bar parou para olhar aquela cena tão exótica. Mas ele não se importava. Depois de tanto tempo e de tantas tentativas, havia chegado o dia, o seu dia, o dia do seu encontro. Natália continuava sorrindo. No entanto, na sua face morena, um traço de carinho demonstrou que ela havia decidido o que fazer: "Começo a gostar de você. É lindo vê-lo dessa forma, tão inocente e perdido. Minha compaixão faz com que eu lhe conceda uma ajuda. Vou lhe ajudar, menino carente, vou lhe dar tudo o que sempre sonhou, e sua tortura acabará, você será intensa e inimaginavelmente feliz durante um tempo. Não obstante, devo-lhe lembrar que somente por uma noite é que serei sua. O conforto que lhe darei será a minha imortalidade em seu sono". O moço estava trêmulo. Não conseguia dizer absolutamente nada. Fora por ela, fora por esta mulher que percorrera todos os corpos possíveis. E eis que num bar qualquer, diante de bêbados e boêmios sem lar, ele sente a cruel paixão da vida; vê com os próprios olhos a síntese do feminino, a mãe, da mãe, da mãe, de sua mãe, a fêmea primeira e fundamental.

Foi a mulher quem o chamou para saírem daquele lugar. Ao que ele simplesmente obedeceu. Todo o bar observou enquanto os dois caminharam abraçados pela rua. No dia seguinte, o assunto do botequim foi a impressão que tiveram quanto ao abraço: era como se a moça tivesse tomado completamente o rapaz, e o envolvesse de tal modo, que nenhuma outra coisa existiu no mundo além daquilo.

Pararam num lugar não muito distante. Entraram num prédio velho e sem elevador. Subiram três pedaços de escada e enfim chegaram, chegaram à casa de Natália. Havia pouca coisa naquele pequeno apartamento de sala, cozinha e quarto. A mobília era constituída de uma cadeira de balanço (daquelas bem antigas), três quadros abstratos na parede, e de uma bonita cama de casal com lençóis vermelhos. No entanto, o moço não prestou atenção em quase nada. Do objeto em cima da cadeira, seus olhos passaram longe. Ele apenas seguiu a mulher na direção do quarto. Ela lhe disse para se deitar, enquanto retirava toda a roupa; realmente era como uma linda espanhola; verdadeiramente parecia que todas as mulheres moravam ali naquele corpo, especialmente as mais bonitas e sensuais. O rapaz permaneceu deitado, enquanto ela fez todo o trabalho noite adentro: foram gemidos bestiais, gozos descontrolados, sensações divinas e infernais; por mais de três horas ele sentiu todo o mundo num canto só; sua alma parecia dizer que o destino estava cumprido, que tudo o que tinha de ser feito aconteceu. Ao final do amor, de cansado ele adormeceu, sonhou, gozou de novo envolvto em imagens e gemidos, e foi despertado com uma doce voz dizendo-lhe ao ouvido: "É chegada a hora, meu homem".

Ele abriu os olhos, e preguiçosamente atendeu à moça, que lhe disse para ir para a sala. O rapaz estava nu, e ainda não havia acordado por completo. A mulher vestia uma camisola da cor da pele, o que dava a impressão de também estar nua. Ele olhou com todo o seu coração para aquele negro cabelo e para aqueles grandes lábios vermelhos, que lentamente balbuciaram uma frase...O rapaz pensou em desistir, mas logo se lembrou da sentença: "apenas por uma noite e para sempre no seu sono". Um outro arrepio, agora muito mais sombrio e violento, lhe assaltou o coração. Era a sua despedida. Mansamente, como um cão obediente, que abocanha um pedaço de carne podre, ele caminhou até a cadeira, abaixou-se e catou o objeto, conforme a ordem que recebera. Uma lágrima lhe feriu o rosto. Ele fechou os olhos e respirou profundamente. O revólver caiu no chão no mesmo momento em que a moça passava o batom vermelho na boca, arrumando-se para ir embora. Segundos depois, ela passou sem olhar para baixo, deixou a porta aberta, desceu as escadas e desapareceu na rua.