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terça-feira, dezembro 22, 2009

Copenhague, uma conferência histórica


Por Eduardo Nunes no blog do Nassif


Cheguei a Copenhagen vindo de uma visita de trabalho ao Haiti (onde a presença brasileira é também apoiada e criticada, mas é reconhecida como determinante). Por mais distantes que a pobre Porto-Príncipe e sofisticada Copenhagen estejam uma da outra, ambas estão mais perto do Brasil e do novo sistema de poder internacional do que nos fazem crer os parciais editoriais.
Por dever profissional (trabalho em uma ONG Internacional de Desenvolvimento), estive em algumas conferências e reuniões de alto nível da ONU, desde a primeira, a ECO-92. Mas, não estava preparado para o que ocorreu na semana passada, na COp15, em Copenhagen.
Muitas foram as surpresas. A primeira foi perceber que a reunião da qual estava participando era vista de forma totalmente parcial pelos que a acompanhavam daqui do Brasil (talvez, do mundo?). A imprensa mostrou manifestações (alias, como se isto fosse algo ruim), conflitos e um impasse improdutivo. Eu participei de outra COP. Saí como a maioria, frustrado com a não assinatura de um acordo “amplo, justo e legalmente vinculante”. Mas, pouco vi manifestações (confinadas a determinadas áreas e horários). Presenciei avanços impensáveis, há pouco. E testemunhei um marco da mudança profunda na geopolítica global.
Vi uma conferência que além da intensa participação das “partes” (Estados Nacionais), contou com uma inédita forte presença de setores corporativos (com destaque para o financeiro), não-governamentais e multilaterais. Houve e sempre haverá conflitos. Mas avançou-se em iniciativas concretas [ara redução de emissões de diversos gases (a imprensa desprezou os importantes avanços em “green-house emissions’, CFC e outros). Na mesma conferência, centenas de projetos foram apresentados, discutidos, ampliados e acordados. Parcerias de todos os tipos foram celebradas. Representam além de alguns bilhões de euros, novos mapas de ação que coordenam setores privados-governamentais-multilarais-sociedade civil. Projetos que suplantam fronteiras nacionais e criam novas geografias de cooperação.
Tudo isto é ainda insuficiente. Mas, diante das dificuldades de um mundo real, não é pouco. Fora as frases de efeito dos chefes de estado, aqueles que prestaram atenção aos discursos veriam que a maioria deles apresentou fatos e ações que já estão em curso. Somados, elas representam avanços importantes.
As manifestações (que não interferiram com os trabalhos, dentro do Bella Center) e a desorganização comum a eventos deste porte (atrasos em credenciamento, mudanças de salas de reuniões, etc.) não mudam o que ocorreu. No caso das manifestações, a imprensa deveria perceber que elas representam uma tentativa (ainda débil, reconheço) de abrir o sistema de decisões internacional a críticas. Mesmo restringida (mas, nunca proibida) nos últimos dias do evento, a participação ampla de observadores privados e não-governamentais também mostra um progresso. Democracia provoca uma dinâmica que alguns setores conservadores insistem em chamar de “bagunça”. Protestos, impasses e discordâncias são do processo democrático.
Por fim, e talvez mais importante, foi a constatação de que esta não foi uma conferencia sobre clima. Foi uma reunião sobre o novo sistema de poder internacional. Nunca, como brasileiro, havia me sentido no centro de uma discussão. Para o bem e para o mal. Antes, ou éramos vistos como irrelevantes, ou como “bonzinhos bem intencionados”. Mas nunca como líderes. Nunca como protagonistas. Até agora. Colegas de outras ONGs internacionais me buscavam para ter informações e conseguir falar com a delegação brasileira. Todos que me encontravam tinham uma posição a expressar. Um apoio, uma crítica. Todos sabiam e reconheciam o novo papel.
Todos menos a imprensa brasileira.
Desde o início, era sabido que o Brasil teria posição protagônica em qualquer resultado da COP15. China e Índia também. Não houve reunião importante na qual o Brasil não estivesse presente. A diplomacia brasileira, com um profundo conhecimento do intricado e burocrático sistema decisório e processual da ONU, conseguiu barrar a maioria das manobras dos países ricos. Como os dois textos “fantasmas”, plantados pela presidência dinamarquesa da conferencia. É só rever as gravações que se perceberá que ambos textos foram desmontados a partir de falas dos representantes brasileiros.
EUA e EU (Japão e Rússia tiveram papel tímido nesta COP) estavam acostumados a ditar tudo. Controlavam as estratégicas relatorias das comissões, enquanto colocavam diplomatas de países pobres nas burocráticas presidências dos grupos. Compravam pequenos e dependentes países com acordos de cooperação. Desta vez não. Brasil e China assumiram um papel de liderança dos “emergentes”, negociaram e apoiaram os países menos desenvolvidos. Quando EUA e EU começaram a ceder alguma coisa (no fim da 6af, dia 18), mesmo com a concordância do Brasil, Índia e China, foi a vez dos liderados dizerem não. Outra novidade. Mostra que o Brasil não exercerá o tipo de liderança dos EUA, hegemônica. Não é, juntamente com Índia, uma nova potência. É um novo tipo de liderança. Expressão de um mundo mais complexo e multipolar.
Dentro destes líderes, a China ainda mantém uma postura mais tradicional de liderança porque tem países em sua órbita de dominação.
Força e potencial econômico, biomassa e petróleo, diplomacia com prioridades nas relações SUL-SUL, carisma pessoal do presidente, etc. Cada um pode e deve discutir os motivos que levaram o país a assumir esta posição (que não é relativa ao clima, é no cenário internacional como um todo). Se bom ou ruim, cada um faça seu juízo. Mas, não é possível que estejamos ignorando este novo papel global e discutindo suas implicações.


domingo, dezembro 20, 2009

Os 10 maiores momentos de Internet


do blog do Luis Nassif  postagem de Wilson Toshio







Os protestos no Irã, a campanha presidencial americana do ano passado, a abertura de capital do Google e o surgimento de sites inovadores como Twitter, Facebook e Wikipedia, estão entre os “dez momentos mais influentes” da internet na última década, segundo os organizadores do Webby Awards, um reconhecido prêmio de excelência na internet.


A lista, englobando “uma década dominada pela internet”, tem como finalidade ressaltar o caráter da rede mundial como “catalisador da mudança não apenas em todos os aspectos da nossa vida cotidiana, mas em tudo, do comércio e as comunicações à política e a cultura”.
“O tema recorrente entre todas os marcos da nossa lista é a capacidade da internet de deixar para trás sistemas antigos e colocar mais poderes nas mãos das pessoas comuns”, disse o diretor-executivo do Webby Awards, David-Michel.
O prêmio, dado desde 1996 a diversas iniciativas presentes na internet, como sites, anúncios interativos, vídeos e filmes online, é considerado uma espécie de “Oscar da internet”.
Premiações
Entre as maiores façanhas da internet nesta década esteve o desafio às mídias tradicionais, ilustrado pela expansão do site de classificados gratuito Craigslist – que “causou um frio da espinha de jornais em todos os lugares”, segundo o Webby Awards – e a possibilidade de empresas anunciarem seus produtos ao lado dos resultados das buscas através do Google AdWords.
Com 20 mil artigos em 18 línguas só no seu primeiro ano, o prêmio considerou que o lançamento da enciclopédia digital Wikipedia no ano seguinte “simbolizou o poder da internet de levar pessoas que não se conhecem em diversas partes do globo a colaborar tanto em projetos grandes e pequenos”.
DEZ ‘MOMENTOS DA INTERNET’


  • 2000 – Site de classificados Craigslist ameaça jornais
  • 2000 – Google barateia publicidade online com AdWords
  • 2001 – Wikipedia é lançada
  • 2001 – Napster inaugura compartilhamento de arquivos
  • 2004 – Google abre seu capital
  • 2006 – Tecnologia permite difusão do vídeo online
  • 2006 – Facebook e Twitter ganham espaço
  • 2007 – Apple lança iPhone
  • 2008 – Campanha presidencial nos EUA ganha a rede
  • 2009 – Manifestantes iranianos driblam censura usando internet


O prêmio destacou ainda a capacidade do antigo Napster, um programa de compartilhamento de música fechado em 2001, de “abrir as portas” para esse tipo de prática – uma “inovação que mudou para sempre a maneira como obtemos e experimentamos música e vídeo”, disseram os organizadores.
Nos anos seguintes, o prêmio destacou a abertura de capital em bolsa da gigante de informática Google “para se tornar a mais dominante e influente companhia da década” e o avanço da tecnologia de transmissão de dados em banda-larga possibilitou o advento do vídeo na internet – uma “revolução” que “remodelou tudo, da cultura pop à política”.
Nesse campo, o prêmio destaca o uso das mídias sociais tanto no caso da campanha presidencial americana de 2008 quanto nos protestos contra as eleições iranianas neste ano.
No primeiro caso, o prêmio afirma que “a internet alterou a forma de fazer política presidencial tanto quanto a televisão havia feito 40 anos, durante a disputa Kennedy/Nixon”.
No segundo caso, os organizadores indicaram a “impossibilidade de se censurar o Twitter”, um serviço de microblogging descentralizado que acabou se tornando uma das principais fontes de informação para o mundo exterior do que ocorria dentro do Irã.
O Webby Awards também destacou a expansão do site de relacionamentos Facebook, que colocou a chamada “mídia social” no centro das atenções.
Por fim, a lista inclui o lançamento do iPhone em 2007. “Na próxima década, estima-se que um bilhão de usuários virá para a internet pela primeira vez através de serviços móveis”, diz o Webby.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/11/091119_internet_decada_pu.shtml


O novo ciclo de investimentos






do blog do Luis Nassif replicando e comentando o Estadão, texto de Raquel Landim


Novo ciclo de investimento industrial pode ser o maior desde o Plano Real

Empresas voltadas para o mercado interno investem pesado para aumentar a capacidade de produção


O Brasil já entrou num novo ciclo de investimentos. Passado o trauma da crise, empresários de setores voltados para o mercado interno, como o automobilístico e o de eletrodomésticos, planejam aumento de capacidade produtiva que não se via desde o Plano Real. Levantamento do Bradesco aponta que, em outubro e novembro, 167 empresas anunciaram investimentos.
O ano de 2010 ainda deve ser de recuperação do investimento, por causa do desempenho mais fraco dos exportadores, mas 2011 promete ser de “febre” graças aos eventos esportivos que ocorrerão no País – Copa do Mundo de 2014 e Olimpíada de 2016 -, à exploração do petróleo do pré-sal e às grandes obras de infraestrutura. Os empresários já falam de “anos mágicos” para o Brasil.
Um índice de intenção de investimentos da consultoria Tendências, elaborado com base nos anúncios de 21 setores da economia, chegou a 105,6 pontos em novembro, depois de cair para 39,5 em maio. Para o analista Bruno Resende, o indicador reflete o bom momento dos investimentos, mas também um “represamento” na crise. “Os projetos estão saindo todos de uma vez.”
Entre os anúncios recentes, estão os planos bilionários de grandes empresas como Petrobrás, Vale, Coca-Cola e Gerdau, mas também investimentos pontuais como o R$ 1 bilhão da CPFL em distribuição de energia ou os R$ 443 milhões da Riachuelo na abertura de 12 lojas. Os analistas estimam uma taxa de investimento entre 18% e 18,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010, acima dos 16,9% previstos para 2009.
Se isso ocorrer, o País vai recuperar o nível de antes da crise, mas será um resultado bem inferior aos 21% prometidos na Política de Desenvolvimento Produtivo como meta para 2010. O governo espera que o País invista entre 23% e 25% do PIB nos próximo anos, taxa que garantiria crescimento sustentável de 6% ao ano e tiraria o Brasil do grupo dos países que investem pouco.
“ESPÍRITO ANIMAL”
Uma série de indicadores demonstra a retomada do “espírito animal”- termo usado pelo economista John Maynard Keynes para descrever o ânimo dos empresários. No terceiro trimestre, o investimento cresceu 6,5% em relação ao segundo e puxou a alta do PIB. A demanda por financiamentos do Finame/BNDES ultrapassou o recorde de setembro de 2008. O salto foi provocado pelo Programa de Sustentação de Investimento do banco que, na prática, oferece juro real zero para financiar a compra de máquinas.
O resultado das condições camaradas de crédito foi um aumento na venda de máquinas e caminhões. “O Brasil está entrando em um novo ciclo de investimentos”, diz o presidente da Romi, Livaldo Aguiar dos Santos. Uma das maiores fabricantes de máquinas do País, a Romi elevou as vendas em 55% no terceiro trimestre do ano.
De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as vendas de caminhões chegaram a 12,4 mil unidades em novembro, quase o dobro das 6,7 mil de janeiro.
Outro termômetro é o ritmo de funcionamento das fábricas. Sondagem da Fundação Getúlio Vargas aponta que, em novembro, a indústria de bens de consumo usava 86,5% da capacidade produtiva, levemente acima dos 86,3% de agosto de 2008, antes da crise, e muito acima dos 78,4% de janeiro.
MERCADO INTERNO
Para o chefe do departamento de pesquisa do BNDES, Fernando Puga, esse novo ciclo é diferente do que ocorria antes da crise, quando todos os setores planejavam expansão. “Hoje os investimentos estão concentrados nos setores voltados ao mercado interno.” Outra diferença é que o governo aparece como indutor importante, graças aos empréstimos a juros baixos do BNDES e ao programa Minha Casa, Minha Vida.
Os setores beneficiados pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) são os primeiros a desengavetar projetos, pois já trabalham com horas extras e sem férias coletivas de fim de ano. O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, disse que as montadoras vão investir R$ 20 bilhões nos próximos três anos. A previsão é que seja o terceiro grande ciclo de investimento no País, após a vinda da indústria na década de 50 e a abertura de novas fábricas no Plano Real.
Segundo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider, o setor sofreu com alta capacidade ociosa desde o Plano Real e os investimentos feitos em 2007, 2008 e 2009 foram para melhorar a produtividade. “Agora teremos mais capacidade, mais produtos e mais tecnologia.” A previsão é que as novas fábricas elevem a capacidade produtiva de 4 milhões de veículos por ano para 5 milhões.
Nos fabricantes de eletrodomésticos, a situação é parecida. Líder do mercado de geladeiras, a Whirpool está operando acima da média ideal da capacidade de produção, que fica entre 80% e 85%. O diretor de relações com investidores da empresa, Armando Ennes do Vale Junior, disse que parte dos US$ 250 milhões de investimentos previstos para 2010 será aplicada em aumento de capacidade de produção. “Em 2010, vamos entrar em céu de brigadeiro.”
Em um evento recente, o presidente da Braskem, Bernardo Gradin, disse que “anos mágicos se aproximam para o Brasil”. O setor químico elevou os investimentos anuais da média de R$ 1 bilhão dos últimos anos para R$ 3,66 bilhões em 2009 e deve atingir R$ 4,5 bilhões em 2010 e R$ 4,7 bilhões em 2011.

Comentário do Luis Nassif:








Lembro que o ciclo de investimentos do Real – que poderia em 1995 ter alçado a economia brasileira ao mesmo ritmo de crescimento da chinesa – foi abortado pelas jogadas do câmbio manobradas pelos economistas, visando jogadas de mercado.
São quinze anos aguardando a oportunidade de um novo ciclo pesado de investimentos. E a sombra do câmbio ainda ronda a economia.






A crise financeira chega aos países


do blog do Luis Nassif   replicando o Estadão texto de Jamil Chade

Em 2010, será a vez da crise da dívida

Com déficits fiscais altos, aumenta risco de países decretarem default
Jamil Chade
Depois de terem sido obrigados a gastar bilhões de dólares este ano para ajudar os setores mais atingidos pela recessão e salvar alguns dos maiores bancos, são agora os governos que ameaçam entrar em colapso em suas contas públicas. O ano de 2010 vai começar como o “ano da dívida”. Das três economias que mais correm o risco de decretar default em 2010, duas fazem fronteira com o Brasil: Venezuela e Argentina.
Em 2008 e 2009, parte da crise ocorreu diante da incapacidade de muitos em pagar suas dívidas. Casas foram devolvidas e empresas foram fechadas em meio à falta de crédito. Para 2010, a eventualidade de uma falência nas contas públicas teria um impacto bem maior. Não por acaso, a agência Moody”s publicou um relatório no início da semana com um título que chamou a atenção do mercado: “Apertem os Cintos – Tempos Tumultuados pela Frente”.
A avaliação tem base no fato de que um número crescente de países se encontra em dificuldades para saldar suas dívidas, problema que ficou explícito diante da situação em Dubai, que foi salvo com um pacote de US$ 10 bilhões por parte de Abu Dabi.
Na Europa, os números assustam até os mais experientes economistas em Bruxelas. O caso mais sério é o da Grécia, com uma dívida que chega a 112,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Para 2010, a previsão oficial da Comissão Europeia é de que o buraco chegue a 135%. A agência de classificação de risco Fitch soou o alerta ao anunciar que a Grécia “corria o risco de naufragar sob suas dívidas”. O primeiro-ministro George Papandreou prometeu reformas, mas apelou para a “solidariedade europeia”. Mas o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, já deixou claro que não pretende fazer emissões de papéis para socorrer a Grécia.
Hoje, o país caminha para um déficit fiscal quatro vezes superior ao teto de 3% estipulado por Bruxelas para ser autorizada a usar o euro.
Portugal vem em segundo lugar, com uma dívida de 77,4% do PIB. No Reino Unido, a dívida representa o equivalente a 68,6 % do PIB, depois dos pacotes para salvar alguns dos maiores bancos do mundo. Com a queda da arrecadação por causa da recessão, o governo britânico ainda termina o ano com um déficit fiscal de 13%. Em 2008, essa taxa era de apenas 6,9%.
Metade do PIB espanhol está vinculada a dívidas. Em termos de déficit fiscal, os espanhóis projetam um buraco de 11,2%, em comparação aos 4,1% de 2008. Ironicamente, Madri assume em 1º de janeiro a presidência da União Europeia e um dos desafios será o de pedir que os governos controlem seus gastos.
Outro caso crítico é o da Irlanda, com um déficit fiscal de 10,75% do PIB. O governo já anunciou que vai promover um corte drástico dos recursos públicos para 2010. A crise não para por aí. Áustria, Ucrânia, Letônia e outros europeus também sofrem com dívidas cada vez maiores.
Nos Estados Unidos, a dívida superou o teto estabelecido pelo próprio Congresso em fevereiro. Segundo o Departamento do Tesouro, o volume chega a US$ 12,13 trilhões. A Casa Branca projeta um déficit recorde para os EUA em 2009 de US$ 1,5 trilhão. Em cinco anos, o volume chega a US$ 4,9 trilhões.
Na América Latina, os problemas também são graves. Para a agência Standard & Poor”s, o México não conseguirá compensar em 2010 sua situação fiscal com a exportação de petróleo. A agência rebaixou a classificação do país na semana passada para BBB.
Cuba, na prática, decretou moratória e não está pagando nenhuma empresa estrangeira pelos serviços prestados por causa das dívidas. No Equador, o governo de Rafael Correa viu o déficit fiscal pular de US$ 685 milhões no primeiro semestre de 2008 para mais de US$ 1,2 bilhão no mesmo período de 2009.
Mas, segundo a empresa de monitoramente do mercado CMA DataVision, a dívida mais assustadora é a da Venezuela. A chance de o país declarar default é de 57%. O país enfrenta uma recessão e tem a maior inflação da América Latina. O governo ainda fechou oito bancos privados em apenas 11 dias.
A Ucrânia tem a segunda dívida mais arriscada do mundo, com 54% de probabilidade de decretar default. A economia do país está sendo mantida por empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Já a Argentina tem a terceira dívida mais crítica do mundo, com 49,1% de possibilidade de quebra. O governo decidiu voltar ao mercado internacional e anunciou a emissão de US$ 15 bilhões em títulos da dívida no mercado americano. Oito anos depois de dar um calote de US$ 100 bilhões, Buenos Aires sabe que precisará de recursos em 2010 para financiar as dívidas, que chegarão a US$ 13 bilhões.
Para a Moody”s, esses países precisam começar a pensar no impacto social desse rombo, pois o risco é de aumento da “tensão social e política”. A dívida mais segura do mundo é a da Noruega, com apenas 1,4% de chance de ver um default.


Os campeões da era da Internet

do blog do Luis Nassif  replicando do Estadão texto de Charles Arthur

Três grupos definem a década na tecnologia

Microsoft, Apple e Google são a parte mais visível do salto dado em dez anos

A década passada pode ser resumida na história de três empresas e uma ideia cada vez mais poderosa. Na aurora do período, em 2000, a Microsoft era um colosso, com vendas equivalentes a US$ 19 bilhões em 1999 e lucro de US$ 7,8 bilhões relativas tanto ao mundo online quanto ao offline. A empresa era dona do sistema operacional mais vendido; mas em abril de 2000 a gigante recebeu ordem de dividir-se em duas – uma empresa de “sistemas operacionais” e outra de “aplicativos” – emitida pelo juiz Thomas Penfield Jackson, que a considerou culpada de violações da legislação antitruste após um julgamento que revelou muito sobre a abordagem inescrupulosa e implacável da empresa para as práticas de concorrência.

A decisão de Jackson – que poderia ter criado um par fascinante de empresas – foi revertida por uma apelação em 2001, depois que comentários feitos pelo juiz durante o julgamento a um repórter, Ken Auletta, foram publicados num livro. Isso conferiu à Microsoft a liberdade de seguir pressionando. Mas o julgamento antitruste quebrou parte do seu ímpeto; a empresa passou, desde então, a agir com mais cautela.

Enquanto isso, a Apple Computer enfrentava dificuldades: apesar da volta de Steve Jobs à posição principal da empresa em 1997, seus computadores causavam pouco impacto no mercado (os computadores eram o único produto da Apple; o iPod só foi lançado em outubro de 2001).

Apesar do sucesso do iMac em termos de design, a empresa avançava pouco do ponto de vista financeiro. Os US$ 6 bilhões em vendas (alta de 3%) e lucro de US$ 601 milhões (alta de 94%) registrados no ano fiscal de 1999 representaram ao menos algum crescimento, após três anos durante os quais a Apple encolheu e sofreu perdas consideráveis (apesar de ainda manter em caixa US$ 3 bilhões).

No final de 2000, no entanto, a Apple tomou uma decisão que mudaria a indústria e as perspectivas da empresa: comprou o Soundjam MP, popular programa reprodutor de arquivos mp3 para o Mac, e os serviços de seu principal programador, Jeff Robbin. Steve Jobs insistiria posteriormente que sua equipe vislumbrara o futuro, a chegada dos discos rígidos em miniatura capazes de armazenar gigabytes de dados, e posicionara a Apple para se aproveitar do momento. Seja como for, a aposta deu certo.

Enquanto isso, todos pareciam animados com a internet – que ainda era um mundo acessível por meio de conexões discadas. Uma pesquisa realizada em outubro de 1999 pela Continental Research mostrou que 18,6 milhões de britânicos tinham acesso à internet, gastando em média 17 minutos por dia (8,5 horas por mês) na rede. AOL e Time Warner deram um grande salto na direção do que acreditaram ser uma sinérgica fusão de US$ 109 bilhões, prevendo que as pessoas absorveriam conteúdo de mídia para as massas por meio de uma conexão restrita à internet. O negócio se revelou uma monumental demonstração de arrogância. Por quê? Conforme a década avançou, e principalmente a partir de 2001 – quando foi lançada a Wikipédia, desenvolvida por Jimmy Wales e Larry Sanger a partir do amadurecimento do software “wiki” -, o poder da multidão, e a habilidade das pessoas de usar a internet para seus próprios fins, e não para aqueles determinados pelos produtores de conteúdo, tornou-se central para a experiência da internet.

ANÚNCIOS NA INTERNET

Concomitantemente ao crescimento da multidão, vimos a ascensão do Google – que usa o poder da multidão para determinar a posição dos sites em seu ranking. No início da década o Google era uma boa ideia em busca de um modelo de negócios. Durante o ano de 2000, a empresa lançou anúncios de texto, apesar de admitir que eram “um pouco primitivos”. No entanto, naquele ano o Google foi contratado como mecanismo de buscas padrão pelo Yahoo. Depois de fechar 1999 realizando 7 milhões de buscas diárias (comparadas às 50 milhões de buscas feitas pelo AltaVista), em 2000 o Google já fazia 100 milhões de buscas diárias. Atualmente, são mais de 300 milhões todos os dias – ou 109 bilhões de buscas anuais.

Mas o Google ainda era um peixe pequeno; em 2000 sua receita foi de apenas US$ 19 milhões, mas seus custos foram de US$ 34 milhões – o que representou perdas de US$ 17 milhões. A empresa avançou timidamente para o lucro em 2001 (receita de US$ 86 milhões, lucro de US$ 10,9 milhões), mas só ganhou peso verdadeiro a partir de 2003 com o lançamento do Google Mail, quando a empresa descobriu como criar anúncios destinados a qualquer tipo de texto. Isso significou que a empresa se tornou capaz de oferecer anúncios em qualquer site, e não apenas nas páginas de busca. Sua receita e seu lucro aumentaram muito.

Então, em meados da década, chegou a banda larga. Apesar de imperfeita e frustrante, a melhoria em relação ao acesso discado era tão notável que todos correram para a rede: os britânicos passam agora 120 horas mensais na internet.

E o que tanto fazemos na rede? A década testemunhou uma explosão no conteúdo produzido por pessoas que antes não encontravam oportunidade para fazê-lo. A construção de páginas (por meio de serviços como o extinto GeoCities), depois os fóruns, e então os blogs ofereceram às pessoas uma mídia antes indisponível. A Wikipédia foi beneficiada conforme os usuários contribuíam com sua própria experiência: o “crowdsourcing” (reunião do potencial criativo da multidão) tornou-se cada vez mais poderoso, fato que chegou à consciência do público quando as imagens em baixa definição dos atentados contra Londres em julho de 2005 contaram a história que a mídia normal não foi capaz de contar.

REDES SOCIAIS

Conforme a década avançou, essa expressão criativa migrou para as novas “redes de relacionamento” como MySpace e Facebook, nas quais as atualizações dos blogs, mais extensas, foram substituídas por comentários diminutos; este fenômeno chegou ao auge com o Twitter, que limita as atualizações ao comprimento de uma mensagem de texto; e assim os pensamentos da multidão tornaram-se disponíveis para a mesma. AOL e Time Warner, enquanto isso, ficaram de fora, incapazes de concorrer com milhões de indivíduos na criação de conteúdo, e incapazes de encurralá-los em lucrativos jardins murados na internet. Este mês a fusão foi de fato dissolvida: a AOL foi recriada com valor estimado em US$ 2,4 bilhões; o da Time Warner é estimado em US$ 35 bilhões. Para onde foram os outros US$ 72 bilhões? Simplesmente sumiram na multidão.


sexta-feira, dezembro 18, 2009

NO NORDESTE É DIFERENTE, É ASSIM QUE A GENTE FALA

(continuando minha declaração de amor pela língua do povo, copio do blog do Nassif esse texto fornecido por nonato amorim)


No Brasil pra se expressar
Há diferenciação
Porque cada região
Tem seu jeito de falar
O Nordeste é excelente
Tem um jeito diferente
Que a outro não se iguala
Alguém chato é Abusado
Se quebrou, Tá Enguiçado
É assim que a gente fala
Uma ferida é Pereba
Homem alto é Galalau
Ou então é Varapau
E coisa ruim é Peba
Cisco no olho é Argueiro
O sovina é Pirangueiro
Enguiçar é Dar o Prego
Fofoca aqui é Fuxico
Desistir, Pedir Penico
Lugar longe é Caxaprego
Ladainha é Lengalenga
E um estouro é Pipoco
Qualquer botão é Pitoco
E confusão é Arenga
Fantasma é Alma Penada
Uma conversa fiada
Por aqui é Leriado
Palavrão é Nome Feio
Agonia é Aperreio
E metido é Amostrado
O nosso palavreado
Não se pode ignorar
Pois ele é peculiar
É bonito, é Arretado
E é nosso dialeto
Sendo assim, está correto
Dizer que esperma é Gala
É feio pra muita gente
Mas não é incoerente
É assim que a gente fala
Você pode estranhar
Mas ele não tem defeito
Aqui bala é Confeito
Rir de alguém é Mangar
Mexer em algo é Bulir
Paquerar é Se Inxirir
E correr é Dar Carreira
Qualquer coisa torta é Troncha
Marca de pancada é Roncha
E a caxumba é Papeira
Longe é o Fim do Mundo
E garganta aqui é Goela
Veja que a língua é bela
E nessa língua eu vou fundo
Tentar muito é Pelejar
Apertar é Acochar
Homem rico é Estribado
Se for muito parecido
Diz-se Cagado e Cuspido
E uma fofoca é Babado
Desconfiado é Cabreiro
Travessura é Presepada
Uma cuspida é Goipada
Frente de casa é Terreiro
Dar volta é Arrudiar
Confessar, Desembuchar
Quem trai alguém, Apunhala
Distraído é Aluado
Quem está mal, Tá Lascado
É assim que a gente fala
Aqui valer é Vogar
E quem não paga é Xexeiro
Quem dá furo é Fuleiro
E parir é Descansar
Um rastro é Pisunhada
A buchuda é Amojada
E pão-duro é Amarrado
Verme no bucho é Lombriga
Com raiva Tá Com a Bixiga
E com medo é Acuado
Tocar em algo é Triscar
O último é Derradeiro
E para trocar dinheiro
Nós falamos Destrocar
Tudo que é bom é Massa
O Policial é Praça
Pessoa esperta é Danada
Vitamina dá Sustança
A barriga aqui é Pança
E porrada é Cipoada
Alguém sortudo é Cagado
Capotagem é Cangapé
O mendigo é Esmolé
Quem tem pressa é Avexado
A sandália é Percata
Uma correia, Arriata
Sem ter filho é Gala Rala
O cascudo é Cocorote
E o folgado é Folote
É assim que a gente fala
Perdeu a cor é Bufento
Se alguém dá liberdade
Pra entrar na intimidade
Dizemos Dar Cabimento
Varrer aqui é Barrer
Se a calcinha aparecer
Mostra a Polpa da Bunda
Mulher feia é Canhão
Neco é pra negação
Nas costas, é na Cacunda
Palhaçada é Marmota
Tá doido é Tá Variando
Mas a gente conversando
Fala assim e nem nota
Cabra chato é Cabuloso
Insistente é Pegajoso
Remédio aqui é Meisinha
Chateado é Emburrado
E quando tá Invocado
Dizemos Tá Com a Murrinha
Não concordo, é Pois Sim
Tô às ordens é Pois Não
Beco ao lado é Oitão
A corrente é Trancilim
Ou Volta, sem o pingente
Uma surpresa é, Oxente!
Quem abre o olho Arregala
Vou Chegando, é pra sair
Torcer o pé, Desmintir
É assim que a gente fala
A cachaça é Meropéia
Tá triste é Acabrunhado
O bobo é Apombalhado
Sem qualidade é Borréia
A árvore é Pé de Pau
Caprichar é Dar o Grau
Mercado é Venda ou Bodega
Quem olha tá Espiando
Ou então, Tá Curiando
E quem namora Chumbrega
Coceira na pele é Xanha
E molho de carne é Graxa
Uma pelada é um Racha
Onde se perde ou se ganha
Defecar se chama Obrar
Ou simplesmente Cagar
Sem juízo é Abilolado
Ou tem o Miolo Mole
Sanfona também é Fole
E com raiva é Infezado
Estilingue é Balieira
Uma prostituta é Quenga
Cabra medroso é Molenga
Um baba ovo é Chaleira
Opinar é Dar Pitaco
Axilas é Suvaco
E cabra ruim é Mala
Atrás da nuca é Cangote
Adolescente é Frangote
É assim que a gente fala
Lugar longe aqui é Brenha
Conversa besta, Arisia
Venha, ande, é Avia
Fofoca é também Resenha
O dado aqui é Bozó
Um grande amor é Xodó
Demorar muito é Custar
De pernas tortas é Zambeta
Morre, Bate a Caçuleta
Ficar cheirando é Fungar
A clavícula aqui é Pá
Um mal-estar é Gastura
Um vento bom é Frescura
Ali, se diz, Acolá
Um sujeito inteligente
Muito feio ou valente
É o Cão Chupando Manga
Um companheiro é Pareia
Depende é Aí Vareia
Tic nervoso é Munganga
Colar prova é Filar
Brigar é Sair no Braço
Nosso lombo é Ispinhaço
Faltar aula é Gazear
Quem fala alto ou grita
Pra gente aqui é Gasguita
Quem faz pacote, Embala
Enrugado é Ingilhado
Com dor no corpo, Ingembrado
É assim que a gente fala
Um afago é Alisado
Um monte de gente é Ruma
Pra perguntar como, é Cuma
E bicho gordo é Cevado
A calça curta é Coronha
Um cabra leso é Pamonha
E manha aqui é Pantim
Coisa velha é Cacareco
O copo aqui é Caneco
E coisa pouca é Tiquim
Mulher desqualificada
Chamamos de Lambisgóia
Tudo que sobra, é Bóia
E muita gente é Cambada
O nariz aqui é Venta
A polenta é Quarenta
Mandar correr é Acunha
Ter um azar é Quizila
A bola de gude é Bila
Sofrer de amor, Roer Unha
Aprendi desde pivete
Que homem franzino é Xôxo
Quem é medroso é um Frouxo
E comprimido é Cachete
Sujeira em olho é Remela
Quem não tem dente é Banguela
Quem fala muito e não cala
Aqui se chama Matraca
Cheiro de suor, Inhaca
É assim que a gente fala
Pra dizer ponto final
A gente só diz: E Priu
Pra chamar é Dando Siu
Sem falar, Fica de Mal
Separar é Apartá
Desviar é Ataiá
E pra desmentir é Nego
Quem está desnorteado
Aqui se diz Ariado
E complicado é Nó Cego
Coisa fácil é Fichinha
Dose de cana é Lapada
Empurrão é Dá Peitada
E o banheiro é Casinha
Tudo pequeno é Cotoco
Vigi! Quer dizer, por pouco
Desde o tempo da senzala
Nessa terra nordestina
Seu menino, essa menina!
É assim que a gente fala


O maior lance de Aécio


Do Blog do Nassif

Ao anunciar sua desistência das prévias do PSDB para escolher o candidato do partido à presidência, Aécio Neves fez o seu maior lance. Pode ser que a desistência da candidatura seja definitiva. Mas o lance maior foi colocar em xeque o governador de São Paulo José Serra, obrigando-o a uma definição.
Aécio queria as prévias do partido agora; Serra, apenas em março. O que está por trás da indecisão de Serra, no fundo, nem é a presidência mas a liderança futura do partido.
***

Serra não gosta de correr riscos. Sobre as eleições presidenciais, seu raciocínio é o seguinte:
1. Ele tem dois cargos à disposição: o de candidato à presidente ou de candidato à reeleição. Para o primeiro, as chances são menores; para o segundo, as chances são concretas.
2. Perdendo a disputa para a Presidência, no dia seguinte aposenta-se da política. O PSDB em peso vai para os braços de Aécio Neves. E São Paulo ficará nas mãos de Geraldo Alckmin – correligionário porém adversário.
3. Se se candidatar à reeleição por São Paulo, provavelmente leva, mas abrirá caminho para a candidatura de Aécio para a Presidência. Tornando-se presidente, no mesmo momento Aécio ofuscará para sempre a liderança de Serra que, até mesmo pela idade, não terá uma outra oportunidade de se candidatar à Presidência.
4. A lógica de Serra – segundo fontes ligadas à Aécio – consistiria em arrastar a definição do candidato à presidência até março. Lá, desistiria, se candidataria ao governo de São Paulo mas, pelo pouco tempo, inviabilizaria o candidato do PSDB. Com isso mataria qualquer possibilidade do PSDB ressurgir com uma nova liderança.
***
A carta entregue por Aécio Neves – ao comunicar sua desistência das prévias – é um programa de governo consistente, um conjunto de princípios capazes de fazer renascer o debilitado PSDB.
Primeiro, mostrou a importância das prévias para revitalizar a prática política do PSDB, um partido que, devido às constantes decisões autárquicas da cúpula, perdeu completamente contato com suas bases.
O segundo ponto era buscar um perfil mais amplo de alianças. Em seu favor, Aécio tem uma aliança inédita com o PT em Minas, que garantiu a eleição do prefeito de Belo Horizonte. Seu discurso em favor do entendimento já tinha sido apoiado por diversas lideranças oposicionistas. Sua proposta foge do confronto Lula-anti-Lula – que tem marcado a militância obsessiva de Serra e seus aliados na mídia. Aécio entendeu bem que o confronto plebiscitário beneficiaria apenas a candidata apoiada por Lula. “Só aproximaremos os brasileiros uns dos outros através da diminuição das diferenças que nos separam”, disse ele.
***
Não foi carta de quem está desistindo; foi de quem está se apresentando. O próximo lance, agora, será de Serra. Não terá mais como passar o pepino para outro disposto ao sacrifício – como foi com Alckmin em 2006.
De qualquer modo, o anúncio, ontem, revelou que, ao anunciar sua suposta desistência, Aécio está mais candidato do que nunca.


A Pec dos Precatórios

Por Índio Tupi no Blog do Nassif


Aqui no Alto Xingu, os índios gostariam de encontrar um corretor de Emenda Constitucional, para consertarem a Emenda Constitucional 62/2009, de 9.12.09, promulgada pelo Congresso Nacional em 10.12.09, mais conhecida como “Emenda Constitucional do Calote de Precatórios”, cujas principais inconstitucionalidades estão sintetizadas no comentário abaixo e que merecem, por sua relevância, um “post” à parte:

“”Emenda dos Precatórios: Calote, corrupção e outros defeitos
Marçal Justen Filho
Doutor em Direito (PUC/SP)
Sócio de Justen, Pereira, Oliveira e Talamini

Foi promulgada, em 10 de dezembro de 2009, a EC nº 62, que alterou a disciplina constitucional sobre o pagamento das dívidas judiciais da Fazenda Pública. Não apenas houve a modificação do art. 100 da Constituição, mas também se verificou a inclusão de um art. 97 ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
Esse art. 97 pretende eliminar os efeitos da coisa julgada e os direitos adquiridos reconhecidos por decisões transitadas em julgado. Elimina o dever de alocação de verbas orçamentárias para a liquidação integral das dívidas.
Sob o pretexto de regularizar o pagamento das dívidas vencidas e não pagas de pessoas jurídicas de direito público, produziu-se um atentado ao Estado Democrático de Direito.
Decisões judiciais transitadas em julgado não precisam mais ser cumpridas. As garantias constitucionais da intangibilidade da coisa julgada e do direito adquirido foram infringidas.
Já me manifestei sobre a essência da proposta (originada na PEC 12/2006) em um parecer, transformado em artigo (Estado democrático de direito e responsabilidade civil do Estado: a questão dos precatórios. Revista de Direito Público da Economia, v. 19, p. 159-208, 2007). As considerações essenciais sobre o tema estão ali contidas (clique aqui para ver o artigo).
No entanto, as inovações trazidas pela EC nº 62 apresentam especial nocividade sob dois ângulos diversos, que exigem especial destaque.
O primeiro reside no art. 97, § 2º, do ADCT, que determina que “Para saldar os precatórios, vencidos e a vencer, pelo regime especial, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios devedores depositarão, mensalmente… 1/12 (um doze avos) do valor calculado percentualmente sobre as respectivas receitas correntes líquidas…”.
O dispositivo estabelece porcentuais variáveis, que vão de 1% até 2% das receitas correntes líquidas – cujo conceito é fornecido pelo § 3º do mesmo art. 97(“… somatório das receitas tributárias, patrimoniais, industriais, agropecuárias, de contribuições e de serviços, transferências correntes e outras receitas correntes…”).
Ora, isso significa tornar irrelevante o montante das condenações judiciais, eis que a alocação de recursos será promovida segundo o critério de uma porcentagem sobre a receita.
Portanto, a elevação das condenações passará a ser algo indiferente. Sucessivas, reiteradas e vultosas condenações não trarão consequência alguma. Nem poderão ser satisfeitas. O Estado nunca satisfará as condenações a si impostas.
Isso é ainda mais grave porque, se o ente político deliberar adotar o sistema de liquidação mediante leilões, aplicar-se-á a regra do art. 4º, I, da EC nº 62. Ali se prevê que “A entidade federativa voltará a observar somente o disposto no art. 100 da Constituição Federal: I – no caso de opção pelo sistema previsto no inciso I do § 1º do art. 97 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, quando o valor dos precatórios devidos for inferior ao dos recursos destinados ao seu pagamento”.
Ou seja, enquanto o valor total dos precatórios for superior ao montante dos recursos alocados, permanecerá sendo aplicado o critério da destinação de um percentual calculado sobre a receita corrente líquida.
Então e como a sistemática se aplica para precatórios vencidos e por vencer, o resultado é um incentivo à multiplicação do passivo da Fazenda Pública.
A elevação do passivo impede a aplicação da disciplina do art. 100 e assegura ao ente estatal o “direito” de promover a limitação da destinação de recursos.
Portanto, os agentes estatais recebem uma chancela para ignorar a ordem jurídica e promover danos a terceiros. As sentenças condenatórias serão destituídas de maior efeito, já que o valor a ser aplicado será sempre fixo e limitado.
A sistemática “transitória”, prevista no art. 97 do ADCT, somente deixará de ser aplicada quando houver a redução do passivo do ente político. Como não há prazo limite para isso, o regime jurídico previsto para ser transitório poderá continuar a ser aplicado até o final dos tempos.
Desse modo, o Estado poderá promover a invasão de terras privadas sem prévia desapropriação, negar aos servidores o pagamento das verbas devidas, destruir os direitos de terceiros e instaurar o completo descaso para com a ordem jurídica. Será levado aos tribunais e sofrerá condenações … as quais nunca serão liquidadas.
Em suma, a sistemática introduzida pela EC nº 62 equivale à eliminação da submissão do Estado-Administração ao Estado-Jurisdição, ignorando uma conquista essencial à democracia e ao Estado de Direito.
Se isso tudo já é absurdamente inconstitucional, há outra previsão assustadora. Trata-se do § 16 do art. 100, que determina que, “A seu critério exclusivo e na forma de lei, a União poderá assumir débitos, oriundos de precatórios, de Estados, Distrito Federal e Municípios, refinanciando-os diretamente”.
É muito fácil imaginar os efeitos práticos dessa regra, que institucionaliza o tráfico de influências e garante mais uma fonte para a corrupção.
Ao facultar a federalização da dívida, mas apenas em virtude de uma escolha da União, propicia-se toda a espécie de desvios éticos. Surgirão os intermediários especializados na obtenção da facilidade.
Os credores serão achacados para concordarem com a intervenção dos “facilitadores”. Os amigos serão premiados e os inimigos serão pressionados a mudarem de posição.
Em conclusão, a EC nº 62 é uma ofensa à Constituição brasileira e às conquistas da Nação. Apenas se pode augurar que o STF reconheça a sua invalidade e impeça a vigência de regras cuja nocividade é incalculável.
Informação bibliográfica do texto:
JUSTEN FILHO, Marçal. Emenda dos precatórios: calote, corrupção e outros defeitos. Informativo Justen, Pereira, Oliveira e Talamini, Curitiba, nº 34, dez./2009, disponível em http://www.justen.com.br/informativo, acesso em [data].”””




quarta-feira, outubro 07, 2009

Chaves é a cara da Globalização

Do Blog do Luis Nassif, por Alessandro

A coisa mais universal que existe na televisão é o Chaves. Não o Hugo Chavez. O Chaves mesmo, aquele programa do SBT.

Desde que sou criança é a mesma coisa… Sempre passando o Chaves. E, no entanto, impossível ver aquelas cenas e não parar nem que seja um pouquinho para ver. O Chaves é a cara da globalização. O programa é mexicano, mas não há quem diga isso. Ele poderia ser brasileiro, norte-americano, polonês, russo e até africano. A sua essência é universal: ingenuidade misturada com maldade, que dão um humor explosivo. Um programa sem retoques. Sem politicamente correto. Sem regras definidas pelos padrões de audiência.

Ali naquela vila, que bem poderia ser um cortiço da periferia de São Paulo, vive uma criança miserável, órfã e que apanha o dia todo: o Chaves. Ele é foco do programa, mas acaba servindo de escada para outro personagens, como Kiko – o almofadinha maldoso e O Sr. Madruga – um cara que goza de todos os predicados pejorativos e motivadores de preconceito: é vagal, fuma, bebe, tem tatuagem. Ao mesmo tempo, é um cara de uma bondade inacreditável.

Quem pesquisar na internet vai encontrar muita coisa sobre o programa e uma leitura muito mais completa e aprofundada das personagens. Até achei um cara que fez uma dissertação de mestrado sobre o programa.

O que mais me chama a atenção é a vanguarda na linguagem. O Programa que assistimos até hoje foi rodado nos anos 70 e início dos 80. E o desejo de fazer humor mostrando as coisas como elas são estão lá.

Sem hipocrisias e sem o falso “bom mocismo” que mediocrizam programas de TV. Muita gente criticava, no alvorecer do modismo da psicologia familiar para qualquer coisa, que o programa mostrava famílias desestruturadas, pessoas com vícios, relações de violência, opressão… enfim, coisas que ninguém jamais veria no mundo perfeito das novelas. Grande bobagem.

Claro que o programa tinha seus exageros, como no episódio em que o Sr. Madruga apaga uma bituca de cigarro na mão do Kiko. Mas olha: que era engraçado era.

E quem não acha, é porque é uma Gentalha, Gentalha!!!


terça-feira, outubro 06, 2009

Política Brasileira (assunto para profissionais)

O Presidente Tancredo Neves era quem gostava de dizer que politica não é coisas para amadores, em especial no Brasil (e mais ainda aqui em Minas).

Achei interessantíssimo essas duas análises, uma do quadro, outra da primeira análise no quadro colocádo. Observem:

Do Jornal Valor:

Lula trabalha pela desistência de Serra
2010: Presidente e governistas estariam “espremendo” Serra até levar o governador a desistir de candidatura

Por Raymundo Costa, de Brasília

A troca de domicílio eleitoral de Ciro Gomes do Ceará para São Paulo provavelmente tirou um potencial candidato a presidente, na eleição de 2010, e revela que depois da escolha de Dilma Rousseff para concorrer à sua sucessão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elegeu a retirada do governador José Serra (SP) da disputa como próximo objetivo.

Para se candidatar a presidente, Ciro não precisaria trocar de domicílio eleitoral. O deputado submeteu-se a uma decisão de Lula, na expectativa de que, mais tarde, possa compor uma improvável chapa com Dilma Rousseff ou mesmo ser candidato a presidente pelo PSB, na hipótese de os governistas julgarem necessário o lançamento de mais de um nome para assegurar um segundo turno com José Serra.

A candidatura a vice de Dilma é improvável porque isso retiraria da aliança o PMDB, o maior partido brasileiro. Ciro teria chance de habilitar-se a vice na eventualidade, hoje improvável, de o candidato do PSDB vir a ser o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Ao trocar de domicílio eleitoral, Ciro desgastou-se com os cearenses que o elegeram prefeito de Fortaleza, governador do Estado e deputado federal, além de lhe garantirem uma passagem pela Assembleia Legislativa. É uma jogada de risco, pois não se sabe qual será a reação dos paulistas.

O movimento da peça Ciro foi o principal lance de Lula, ao vencer o primeiro prazo importante para as eleições de 2010. O outro deu-se fora do campo governista: a filiação da ex-ministra Marina Silva ao PV. Ela dificilmente será uma nova Heloisa Helena (P-SOL), agressiva e sem estrutura. Marina é calma e mesmo num partido pequeno, deverá contar com o apoio de movimentos organizados como as ONGs ambientais. Deve ter menos problemas de financiamento de campanha do que Heloísa Helena. Lula preferia que Henrique Meirelles ficasse sem filiação partidária, mas ele decidiu ir para o PMDB.

A mudança de domicílio de Ciro foi decidida em reunião da cúpula do PSB com o presidente. Os dirigentes do partido ainda argumentaram que Ciro candidato a presidente serviria melhor aos interesses do Palácio do Planalto, pois assegurava a passagem de um aliado de Lula para o segundo turno. O presidente respondeu que compreendia o raciocínio dos pessebistas, mas que ele queria Ciro em São Paulo.

Ciro Gomes disse ao Valor que transferiu domicílio eleitoral para São Paulo, mas que a única certeza que tem é a de que será candidato a presidente da República. “Estou tão seguro disso como das duas outras vezes em que disputei (e perdeu)”, disse. O que ele não nega é que entra na campanha pronto para azucrinar Serra. “Vou dizer o que José Serra representa”. E o que o governador paulista representa? Segundo Ciro, “com todos os méritos que ele (Serra) tem, não pode fingir que não representa a volta da turma do Fernando Henrique Cardoso”. Basta observar, segundo o deputado, que Serra governa São Paulo “com a turma de FHC”. Entre outros, cita Andrea Matarazzo e Paulo Renato, ex-ministros tucanos. “O que Serra fez quando o câmbio estava apreciado?”.

O deputado e ex-ministro de Lula ri com desdém quando confrontado com informações segundo as quais não seria o Plano B de Lula na disputa presidencial. Ciro entende que a imprensa ainda não compreendeu e nem deu a devida importância ao que de fato está ocorrendo: eles (os governistas) estariam “espremendo” Serra até levar o governador a desistir de sua provável candidatura a presidente. “O Serra faz uma avaliação ciclotímica”, acredita o deputado. Nas últimas pesquisas feitas, Serra já perde para a soma dos outros candidatos. E ninguém esquece que ele já desistiu uma vez: em 2006 liderava as pesquisas, mas cedeu a vaga para Geraldo Alckmin.

Serra costuma dizer que não será candidato a qualquer custo e que só se decidirá por volta de março. É provável – é seu estilo deixar decisões como essa para o último minuto. Mas a direção tucana não vê um movimento sequer que a leve a especular a eventual desistência de Serra. Pelo contrário, e até com uma certa surpresa, vê o governador de São Paulo bem mais ativo, nas articulações internas, que Aécio Neves. O tucano mineiro trabalha mais no sentido de provar que é capaz de agregar mais apoios.

Semana passada, Aécio conversou com o presidente da República. Deixou claro que, se for o escolhido dos tucanos, não será um candidato antiLula. Ciro diz que, na eventualidade da candidatura Aécio, ele próprio vai repensar a sua. Ele acha que o governador de Minas seria um candidato forte, que de saída levaria 80% dos votos mineiros e não teria dificuldades no Sul, que já vota contra o PT. E na região Nordeste, reduto do lulismo, teria mais chances que Serra. Ciro diz que o país não deseja outro presidente de São Paulo, e que Lula pensa como ele, nesse aspecto em particular.

Aécio, de fato, ampliou o arco de suas articulações políticas fora do PSDB. Ele acena para os tucanos, por exemplo, com a possibilidade de fazer uma aliança com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. O Rio é terreno minado para Serra. O governador de São Paulo havia estabelecido uma cabeça-de-ponte no Estado por intermédio do deputado Fernando Gabeira (PV). Mas o cenário muda com a candidatura de Marina Silva a presidente. Cabral, por seu turno, já não demonstra tanto entusiasmo com a candidatura Dilma, o que deve mudar se a ministra voltar a subir nas pesquisas de opinião, como esperam Lula e o PT.

Serra não tem como ignorar Ciro em seu quintal. Segundo os tucanos, a decisão de Lula deixou o governador incomodado. Menos pelo potencial eleitoral do deputado – ‘Ciro é mamão com açúcar’, dizem dirigentes do PSDB -, e mais pelo papel que ele vai desempenhar em São Paulo atacar o governador e baixar o nível da campanha, deixando para a candidata do governo o figurino ‘Dilminha paz e amor’. Partidos aliados dizem haver um acordo tácito Lula-Serra para manter elevado o nível da campanha eleitoral, em 2010. A prática aponta outra direção..

Pouco antes de mudar de domicílio, Ciro disse que Serra tinha alma mais feia do que o rosto. O deputado do PSB queixa-se de que a imprensa deu destaque a sua declaração, segundo ele publicada fora de contexto. No entanto, ignorou uma frase de Serra em que o governador diz que as críticas a um projeto do Palácio dos Bandeirantes não passavam de “trololó político”. Segundo o dicionário Aurélio, trololó significa “música de caráter ligeiro e fácil”. Mas na linguagem popularmente quer dizer “nádegas”. Trololó é uma expressão constante no vocabulário de Serra. “Trololó petista”, costuma dizer o governador.


Do Blog do Luis Nassif:
 
O quebra-cabeça das eleições
Luis Nassif


O quebra-cabeças político não é para qualquer um. O repórter colhe dados, informações, rumores e tem dificuldade para entender o jogo, quando há a necessidade de deduzir as peças que faltam. O analista recolhe dados incompletos, monta um quebra-cabeça com algumas peças, deduz as peças que faltam, para chegar à conclusão final.

O bom repórter, se não for analista, acaba se confundindo com os sinais.

É o que ocorre no Valor de hoje, com a matéria que afirma que a intenção da estratégia eleitoral de Lula é inviabilizar a candidatura José Serra.

O repórter juntou peças e raciocínios, alguns corretos, alguns incompletos, para chegar a uma conclusão errada.


Seu raciocínio:

1. Lula teria estimulado Ciro Gomes a mudar o domicílio para São Paulo (informação provavelmente correta).

2. Lula teria estimulado Marina Silva a se mudar para o PV (informação com baixa probabilidade de ser correta). Ambos – Ciro e Marina – tiram votos de José Serra.A evidência na qual o repórter se baseia é no fato de Marina não atacar o governo Lula. Ora, reside nessa estratégia sua única chance de capturar votos de dissidentes do PT que jamais aceitariam Serra. Se ela se tornasse uma antilulista, aí sim se poderia dizer que estaria disputando o espaço com Serra.

3. O papel de Ciro seria o de assumir a frente anti-Serra (provável), liberando Dilma Roussef para ser a conciliadora. Mais à frente, seria o vice de Dilma (muito cedo para essas certezas).

O raciocínio está certo quando apresenta o plano A (com Dilma) como o da conciliação) e o B (com Ciro) como o da guerra.

Mas não tem como combinar o fim do jogo, com Dilma e Ciro casando-se politicamente no final e sendo felizes para sempre. Foi dada a largada e só mais à frente se saberá qual alternativa está mais avançada, se A ou B. Tem-se uma obra aberta, que comportará vários finais.

4. A partir desses dados, como o alvo principal parece ser Serra, o repórter conclui que a estratégia de Lula será a de inviabilizar a candidatura Serra. Aí faltou a sutileza do analista.

O Planalto centrou a estratégia de ataque em São Paulo simplesmente porque São Paulo é a alma do PSDB nacional e o reduto do antilulismo mais intransigente.

Há uma dupla relação de causalidade nesse jogo.

* A força de Serra reside no antilulismo paulista. E sua imagem está fortemente blindada pela mídia.

* O crescimento do lulismo depende da derrubada dessa blindagem. E ninguém melhor que Ciro para ousar esse desafio.

O erro central da análise está justamente sua conclusão final. Interessa ao Planalto enfraquecer Serra (e, por tabela, o PSDB em São Paulo), mas não tirá-lo da disputa. Teme-se muito mais o fato novo – representado por Aécio – do que o candidato conhecido, com a imagem imprudentemente colada ao do político de maior rejeição da história moderna do país: Fernando Henrique Cardoso.

Comentário Meu:

Não Acredito, de fato, em toda essa orquestração observada pelo primeiro analista. De fato creio que as canditaturas de Marina Silva e Ciro Gomes, são, para o Lula mais problemas com que se deve lidar, do que ferramentas para minar uma eventual candidatura de José Serra. O mundo perfeito para a candidatura da Dilma, seria sim, a eleição plebsitária projetada por Lula e pelo PT. Marina aparece enfraquecendo a candidatura oficial, e o Ciro chega absorbendo em parte a aura da continuidade (atrapalhando Dilma ainda mais). A transferência do domicílio eleitoral do Ciro Gomes é uma forma de ele se manter como plano B de Lula à candidatura da Dilma, mas mantendo para si, também, a possibilidade de um plano alternativo, com uma possivel candidatura ao governo de São Paulo ungida com o apoio e a indicação do Presidente Lula.

Concodo com o Nasif em relação a candidatura do Aécio (que não está morta ainda, acreditem), e se para Biografia do Lula, seria interessante para ele poder dizer que não haveria opositores ao seu governo entre os candidatos a sucedê-lo. Porém o Risco (que já é grande) da candidatura de Dilma Roussef naufragar, torna-se ainda maior no caso da Candidatura do Governador de Minas que tem muitas boas relações entre expoentes da base que apoiaria a candidatura da Ministra.

Por fim, do meu ponto de vista, esse atribuo muito do quadro formado e das decisões tomadas, mais ao feeling dos envolvidos, do que a planejamentos e estratégias mirabolantes.


A Microsoft e os Danos do Monopólio

por Luis Nassif no seu Blog.

Li no excelente caderno Link, do Estadão, que o Xbox, da Microsoft, deixou de ser o campeão de problemas técnicos, entre os consoles de jogo.

Eu nem sabia disso. Acompanhei o inicio da guerra, o alarido infernal preconizando que a Microsoft bateria a Sony nesse campo. Mas só agora fico sabendo que seu aparelho foi o campeão de reclamações. E em uma nota que afirma que isso é passado. De um tempo para cá o Xbox teria dado a volta e tornou-se o aparelho com menor número de reclamações.

Daqui a algum tempo é possível que apareça outra matéria informando que em setembro de 2009 o Xbox ainda dava muitos problemas, mas agora…

Em outra revista leio que o aparelho que a Microsoft lançou com estardalhaço para concorrer com o iPod, detém parcelas insignificantes do mercado americano. Deverá ser desativado em breve.

Em uma outra matéria, a informação de que a Microsoft admite que o Windows Vista foi o maior fracasso (“menor sucesso”, como diz um executivo da empresa) da história da empresa. E o Windows Mobile, para celulares, caminha para a irrelevância.

Fica cada vez mais claro a extraordinária importância do marketing positivo na história da companhia.

Quando saíram os primeiros Outlooks, uma geringonça inadministrável, só se ficava sabendo dos defeitos e reclamações de uma versão quando eram lançadas novas versões corrigindo as anteriores.

Agora, será lançado o Windows 7. Um sucesso total, de acordo com as pesquisas que a empresa divulga – e são aceitas acriticamente pela mídia especializada. E me lembrei do extraordinário sucesso de público que foi o Windows Vista.

Li uma boa avaliação na Infoexame. Nada que me fizesse abrir mão do XP no Toshibão. E menos ainda dos meus Macs. A edição analisa a nova versão do OS do Mac e o Ubuntu. Terminei a leitura pensando em fazer uma nova tentativa com o Ubuntu em uma das partições do Toshibão.

O ponto mais interessante é que, enquanto a nova versão do OS-Leopard, da Apple, será lançada por menos de R$ 100,00, o Windows Vista terá o estratosférico preço de R$ 700,00. E porque isso? Porque o último monopólio que restou à Microsoft é das redes empresariais de grandes empresas que usam o Exchange. Se ela entrar na guerra de preços, garante o futuro, mas esmigalha o próximo balanço.

Já existe um movimento consistente – da Google à IBM – para oferecer redes virtuais como substituta das redes internas das empresas. Essa nova onda irá conquistar rapidamente pequenas e médias empresas. As grandes corporações exigirão níveis de segurança maiores. São elas o último reduto do poderio da outrora imbatível Microsoft, centrado em dois produtos básicos: o Exchange e o Office (incluindo o Messenger).

Toda a criatividade exibida antes de se tornar monopólio, exauriu-se com o monopólio. Cadê o OneNote, o Sharepoint, as comunidade de relacionamento, os produtos virtuais? Rompeu-se em um momento qualquer em que a competição deixou de ser a mola mestra da empresa, substituída por manobras jurídicas, conluio com setor público e abusos de poder de mercado.

Comentário Meu:

Desde de a fantástica jogada do Bill Gates de licenciar o DOS, gratuitamente, e abocanhar quase todo o mercado de sistemas operacionais no mundo, a microsoft nunca mais deu uma dentro (se analisarmos a qualidade de seus produtos). Enfim a Microsoft sempre foi uma empresa de excelente negociantes, mas não de programadores, programas e produtos top de linha.


quarta-feira, setembro 23, 2009

Síndromes e psicologices

por LUÍS NASSIF, Coluna de 2005 (republicada no blog)


Dia desses fui atrás do meu neurologista. Julgava ser vítima do transtorno de hiperatividade e déficit de atenção. No ano passado, saiu um livro sobre o tema, que virou best-seller. Já tinham me alertado de que era um embuste, com muito marketing e quase nada de ciência.

Mesmo assim havia um conjunto de fatores que identifiquei em mim. E toca a visitar Daniele Riva, neurologista, filósofo, intelectual sólido. Perdi a consulta, porque não tinha nada, mas ganhei em conhecimento.

É da natureza da medicina a categorização das doenças. É a partir disso que se definem os procedimentos médicos.

Quando se trata de sintomas de comportamento, esse visão “cabeça de planilha” do médico patina. O comportamento pode ser afetado pela educação do indivíduo e, em muito, pelos próprios valores da sociedade moderna. Entre o comportamento “estranho” e a patologia, há um universo de gradações, sem a compartimentalização que caracteriza outros tipos de doença. Só que, nos últimos anos, a praga do marketing passou a assolar a psiquiatria e, com ela, o recurso de categorizar os sintomas.

A dispersão e o esquecimento são características desses tempos de hiperinformação. A mente não consegue processar todas as informações recebidas não por qualquer síndrome do indivíduo, mas porque existe uma superdosagem de informações. Além disso, a formação da maior parte das pessoas visa o sucesso profissional, o que gera ansiedade, dedicação desmedida ao trabalho.

Nossos pais trabalhavam tanto quanto nós e não tinham por hábito o lazer. Hoje esse perfil seria tratado como “compulsão pelo trabalho”, e a busca do lazer, imposta como necessidade médica. Homens namoradores eram tidos como “galinhas”. Hoje, viraram “compulsivos sexuais”, especialmente após o episódio Michael Douglas. O gosto pelo chocolate transforma as pessoas em “chocólatras”. E a gula virou “compulsão pela comida”.

Quando se analisam sintomas de síndromes diversas, se verão muitos pontos em comum. O que parece é que o médico pega um conjunto de características, comuns aos tempos modernos, monta o quebra-cabeça a seu gosto e cria o seu diagnóstico, que pode ser de borderline, síndrome da atenção ou qualquer outra.

Aliás, nos anos 70 tornou-se famosa em São Paulo a história do dono de uma construtora flagrado pela mulher no sofá da sala com a empregada. Sua reação foi um ataque de risos, seguido de uma fuga rápida. Dois dias depois um amigo dele, psiquiatra, procurou a mulher e informou-a de que ele tinha rido devido a um ataque nervoso, de que estava disposto a voltar para casa, mas ela não poderia em hipótese nenhuma relembrar o episódio, pois colocaria em risco sua sanidade mental.

Por trás disso tudo, existe uma rentável indústria do psicologismo, contra a qual os consumidores têm poucas defesas. A subjetividade do tema, o fato de os analistas atuarem em grupos, uns indicando outros, e o receio dos pacientes de denunciar os manipuladores tornam o homem moderno não apenas vítima das doenças modernas mas também dessa indústria da terapia.


O governo Collor e João-Bafo-de-Onça

DO BLOG DO LUIS NASSIF:

Da coluna da Mônica Bérgamo:

“Mas, se ganha, não governa”, continuou Lula. “Outro dia, eu viajei com o Collor pra Alagoas. E eu perguntei pra ele: “Mas, Collor, como você foi nomear um cara como o João “Bafo de Onça” para o seu ministério [referindo-se a João Santana, nomeado por Collor secretário de Administração], um cara, sabe, que não ganhava nem eleição para diretório do PT?” E o Collor me disse: “Eu não tinha quadros”. É isso. Sem quadros, você não governa.”

Comentário do Luis Nassif:

Ainda está por merecer uma análise sóbria o governo Collor. O despreparo da equipe era evidente. O João “Bafo-de-onça”, mencionado por Lula, era o João Santana, primeiro indicado Secretário de Administração, depois Ministro da Infra-estrutura – um superministério que juntava quatro ou cinco ministérios de peso.

Na época, João era um meninão. Freqüentávamos o Bar Brasil, dos irmãos Caruso. Cada vez que arrumava uma namorada bonita, o João se comportava como um ser superior, que nem olhava para o lado, para gargalhada de uma turma de sacanas empedernidos, como o Percival Maricatto e outros.

Era um meninão, apenas isso, de idade e de cabeça. Seu cargo anterior mais relevante tinha sido o de uma espécie de guarda-costas do ex-Ministro Dilson Funaro.

Eleito presidente, Collor o indicou para a Secretaria da Administração. O estrago que ele fez levou anos para ser parcialmente corrigido. Conseguiu, inclusive, liquidar com o censo decenal do IBGE.

Na Infra-estrutura, Santana declarou certa vez à Gazeta Mercantil que caberia a ele definir o sistema de celular da Telesp. Fiz uma crítica duríssima a ele. Me chamou em Brasília, esticou um documento na minha frente e perguntou: “O que você acha agora desse modelo de licitação?”. Havia recuado da posição anterior e queria o aval de um jornalista para o novo modelo de licitação que estava preparando.

Não acreditei no que ouvia. Perguntei se ele estava brincando. Não, estava falando sério. Expliquei com toda calma que pude que não era advogado, não era especialista em licitação e não era avalista de ninguém. Se quisesse, divulgasse a minuta do edital e recolhesse as repercussões pela imprensa.

São dois episódios que mostram, por alto, a estrutura extremamente precária que Collor levou para seu governo. Sem contar sua Ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, possivelmente a pessoa mais despreparada a ocupar esse cargo na história moderna do país.

Por outro lado, embora os métodos de Collor fossem conhecidos – e em nada fossem diferentes do que veio antes e depois -, antes do seu processo de demonização muitos políticos relevantes aceitaram os acenos feitos para que fossem compor a sua equipe.

No PSDB, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso e José Serra quase aceitaram o convite. Foram impedidos por Mário Covas – na época, duramente criticado pelo então governador do Ceará, Ciro Gomes, por sua intransigência.

Não estou “acusando”FHC , Serra e Ciro de quase terem se tornado colloridos. Aliás, acho que o país teria ganhado muitíssimo se tivessem ido para o governo. Apenas mostro que houve dois Collors, o anterior ao período de demonização e o que foi demonizado pela imprensa e virou maldito.

Depois que ele caiu, nenhum dos quase aliados ousou sequer mostrar partes positivas de seu governo, por medo do patrulhamento. A mesma imprensa que o incensara, depois o amaldiçoara, jogando-o no limbo da história.

Aquela máxima das apelações na polêmica – invocar Hitler e o nazismo para liquidar a discussão – aplicou-se a Collor. Basta comparar um argumento ou situação com o Collor para liquidar com a discussão.

O tema Collor, aliás, mostra um dos pontos pobres da discussão pública. Não se pode analisar o personagem com seus defeitos e qualidades. A pobreza retórica faz com que se isole o elogio, o sujeito seja taxado de “pró-Collor” e estamos conversados.

E, assim, esse blogueiro, jornalista mais perseguido por Collor – tirou meu programa do ar em Brasília e no Rio, seu pessoal me processou várias vezes – teve que dar a cara a bater e defender isoladamente, nesses anos todos, que o governo Collor teve aspectos positivos e uma visão de futuro não igualada por seus sucessores, e só proporcional à sua falta de cintura política.

PS – Quem for patrulhar, devagar que hoje é o início da Primavera.

COMENTÁRIO MEU:

Cara-pintada que eu fui, tendo estado na rua pedindo o impedimento do presidente, devo dizer duas coisas, fica provado pela passagem do tempo, que não foi a corrupção quem tirou Collor do poder, haja visto os escândalos de maior gravidade, e sem punição alguma ou punições menores (meras maquiagens) que se seguiram na cena política nacional nos últimos 15 anos. Sendo a demonização que houve da figura do ex-presidente fato muito mais midiático do que jurídico.
A segunda coisa é que hoje, quando o Brasil alcança a terceira avaliação de grau de investimento (ou Investment Grade, para quem assim preferir), se formos olhar bem, quem lançou as bases para que o Brasil se modernizasse e aparecesse hoje como um player a ser levado a sério, foi exatamente o presidente Collor com as reformas que seu governo implementou.

Não me arrependo de nada que fiz naquela época, mas avaliando corretamente, Collor foi sim bom para a economia. Agiu mal no tratamento da coisa pública, e por isso mereceu o impedimento. Se fosse mantido o raciocíno tanto FHC, como Lula, repetiram a trajetória, tanto no que diz respeito a economia, tanto quanto no trato da coisa pública.


domingo, setembro 20, 2009

10 coisas que a internet está destruindo

Claudio R S Pucci (Publicado no Blog do Luis Nassif por Sérgio Troncoso)

Há 30 anos, ninguém imaginava que o computador iria revolucionar a vida das pessoas como faz hoje. Tarefas que antes levavam dias para serem completadas, hoje são acabadas em minutos. Dezenas de papéis que iam e vinham nas famosas “comunicações internas” viram seu fim com o advento do e-mail. O fluxo de informações também aumentou e é possível achar dados de qualquer assunto pela web. Só que, como tudo na vida, existe o lado negativo da internet e assim relacionamos 10 coisas que estão desaparecendo ou mudando, não necessariamente para melhor, graças à rede mundial:

10) A língua portuguesa: Ronald Golias tinha um quadro na década de 70 onde discorria sobre o más, mas e mais e suas diferenças (elas são más, mas têm mais qualidades que defeitos, por exemplo). Isso sumiu com os comunicadores eletrônicos. Só o MAIS existe. Além disso nos acostumamos a abreviar. “Você” é “vc”, “Por que” é “pq” e até um gostoso beijo é “bj”. Não podemos também deixar de lado a nova gramática internética que produz pérolas como “podexá qui to sussa lah nu msn”.

9) Álbum de fotografia: antigamente para você ver as maravilhas que registrou na sua viagem ou festa de aniversário tinha que mandar revelar o filme e aí era só montar o álbum e mostrar para todo mundo. Hoje não. Sem a limitação de chapas a serem batidas, podemos disparar mais de 1.000 vezes e depois jogar tudo no Facebook, Picasa, Flickr ou seja qual for o site que pretende se expor e deixar lá para quem quiser ver.

8 ) Expectativa pelo resultado do jogo: bons tempos aqueles onde você mal esperava o momento para comprar o jornal e finalmente ver como foi XV de Piracicaba versus Bangu, direto de Limeira. Agora é só entrar na net e conferir em um dos milhares de sites de esportes.

7) Hora do almoço: quantas vezes você sai a pé no almoço para espairecer, tomar um sol ou respirar ar de verdade ao invés de ficar atualizando seu Orkut, Facebook etc ou lendo seus e-mails pessoais?

6) Ler jornais: comprar um “solta-tinta” na banca ou assistir um telejornal à noite eram as únicas maneiras de se manter diariamente informado. Agora as notícias são apresentadas em tempo real e se você não as ler no exato momento em que saíram, em uma hora já está caduca.

5) Dezenas de cartões de Natais em sua caixa de correio: era tão bom quando chegava o fim do ano e você recebia cartas e cartões de gente que não via há décadas. Naquelas mal traçadas linhas, sentia um calor imenso no peito por ter sido lembrado. Hoje tem o impessoal e-mail, fácil de enviar, fácil de apagar. E as linhas não são mais mal traçadas porque tem corretor autográfico.

4) As emoções da pornografia: lembra quando você era moleque e tinha uma alegria imensa em colocar suas mãos em uma revista de sacanagem que ficava devidamente escondida em algum rincão escuro do seu armário ou debaixo do colchão? Era uma transgressão imensa, não é mesmo? Isso acabou. Hoje qualquer garoto pode acessar sites adultos e achar de vietnamitas anãs lésbicas a homens que se vestem de Pato Donald com apenas alguns cliques. E ainda limpar os rastros com uma facilidade imensa (sim, eventualmente nossas mães achavam as revistas).

3) Comprar um disco ou CD por causa de uma música: você escutava na rádio alguma música que gostava e eram horas pensando se valia a pena adquirir a duras custas o LP (esse é velho) ou CD daquele artista, mesmo porque não era barato. Atualmente existem os sites que vendem música a música e os recursos do download ilegal, que fazem com que “os artistas de um sucesso só” se multipliquem como coelhos.

2) A visita à biblioteca: quando você estava na escola e precisava fazer um trabalho sobre a influência do asfalto na cultura de aspargos em Zâmbia, tinha que ir para a biblioteca do colégio, já que sua coleção da Conhecer não abordava esse importante tópico. O Google (e agora o Bing) acabou com isso e o recurso do Copiar/Colar ainda faz com que a molecada nem leia o texto. Sem contar que, nem toda a informação da internet é verdadeira e nem toda verdade está na internet.

1) A privacidade: além dos softwares que registram o que você acessa e procura e mandam para os imperadores da internet todas as informações a seu respeito, as redes sociais se tornaram verdadeiras vitrines com pessoas se expondo de uma maneira que nem seus pais conheciam. A falta de bom senso também impera naqueles que se abrem de maneira explícita (os famosos “apague essa mensagem” do Orkut) e nos cafajestes que adoram publicar fotos de ex-namoradas nuas em páginas especializadas em amadoras.


segunda-feira, setembro 14, 2009

Corrupção e governabilidade

por RUBENS RICUPERO, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente essa coluna para a folha de São Paulo. (copiado do Blog do Luis Nassif).


No país, substituíram-se a violência e a tortura como suposta condição para ter segurança e governar

A CORRUPÇÃO passou a ser condição da governabilidade. É essa a justificativa de dirigentes de partidos do governo para sua cumplicidade no enterro dos escândalos parlamentares. A diferença com o regime militar é uma só: substituíram-se a violência e a tortura pela corrupção como suposta condição para ter segurança e governar.

Corrupção e violência, ensinava o filósofo Norberto Bobbio, são os dois tipos de câncer que destroem a democracia. No regime militar sacrificou-se a democracia em nome da segurança, elemento da governabilidade. Hoje a situação mudou e se usa o mesmo pretexto para fazer engolir o conluio ou a indulgência com a corrupção. Não sendo apanágio apenas de um governo, o vício se agrava ano a ano.

Nem a seriedade dos últimos escândalos, que comprometem instituições inteiras, conseguiu alterar a complacência dos governos, que pode não ser eterna, mas tem se revelado infinita enquanto dura.

Outro escândalo, agora de caráter intelectual, é que os politicólogos julgam o sistema de “presidencialismo de coalizão” como perfeitamente funcional, pois produziria governabilidade. Aparentam-se os nossos sábios aos fundamentalistas do mercado, que também acreditavam na neutralidade moral do mercado, que seria autorregulável, capaz de se corrigir automaticamente.

Em ambos os casos, os resultados justificariam os meios. Contudo, o derretimento do mercado financeiro mostrou que as torpezas e as falcatruas dos operadores acabam por provocar degeneração funcional, destruindo a própria instituição. A moral e a ética não são adornos para espíritos delicados, mas componentes indispensáveis ao bom funcionamento de qualquer sistema.

Isso não vale apenas para os mercados. A Primeira República italiana, que resistira ao desafio de governabilidade devido à presença do maior Partido Comunista do ocidente, se desmoronou à luz da corrupção desvendada pela Operação Mãos Limpas. A República Velha brasileira afundou no pântano da corrupção eleitoral e foram os escândalos que puseram fim à carreira e à vida de Getulio Vargas.

Não passa de autoilusão a ideia de que a economia cresce e o país se desenvolve apesar da corrupção e dos escândalos. Também na Itália, o “milagre econômico”, o dinamismo, a inovação pareciam legitimar um sistema decadente. Com o tempo, a corrupção e o fracasso na reforma das instituições produziram o inevitável: a estagnação e o desaparecimento do dinamismo. Seria diferente aqui onde os mesmos vícios tendem a produzir idênticos efeitos?

Quando foi assassinado o juiz Giovanni Falcone, Bobbio chocou a opinião pública ao declarar que sentia vergonha de ser italiano e deixaria o país se fosse mais jovem. Recompôs-se depois desse momento de abatimento moral. Neste centenário do seu nascimento, a capacidade de se indignar do velho filósofo tem sido evocada ao lado da lição do grande poeta Giacomo Leopardi.

Numa das incontáveis horas amargas da Itália, dizia o poeta: “Se queremos um dia despertar e retomar o espírito de nação, nossa primeira atitude deve ser não a soberba nem a estima das coisas presentes, mas a vergonha”.

No panorama de miséria moral de nossas instituições, deve-se escolher entre a atitude de soberba e estima das coisas presentes da propaganda complacente e a vergonha regeneradora do país futuro.